Recursos para infraestrutura terão que dar um salto de 33% até 2016

FONTE: GOIÁS NET

Despreparo técnico, improvisação e até uma pitada de populismo são alguns dos ingredientes que, combinados com as inseguranças jurídicas e regulatórias que caracterizam o ambiente de negócios no país, têm afastado os investidores estrangeiros dos projetos de concessão de infraestrutura do governo, na avaliação de empresários e economistas.

Não contar com recursos externos é algo impensável diante dos enormes investimentos que o setor demandará nos próximos anos. Estudo da Associação Brasileira das Indústrias de Infraestrutura (Abdib) indica que, dos R$ 198,4 bilhões desembolsados ao longo do ano passado em projetos de logística, saneamento, energia e petróleo e gás, o país terá de saltar para R$ 264,3 bilhões em 2016 para atender às necessidade da economia. Ou seja, um aumento de 33,2%.

Rentabilidade e segurança

Paulo Godoy, presidente da Abdib, observa que, como a capacidade financeira do BNDES, principal financiador da infraestrutura no país, é da ordem de R$ 60 bilhões ao ano, não há como atrair recursos na escala necessária sem oferecer segurança jurídica, marco regulatório estável e, principalmente, rentabilidade.

— Os investidores internacionais olham as oportunidades ao redor do mundo e se não garantirem rentabilidade compatível com os riscos, como as empresas poderão emitir debêntures, ou outros títulos, para financiar os projetos? É um jogo de xadrez — diz Godoy, para quem o fato de grandes companhias globais, como a Shell e a Total, terem entrado no consórcio vencedor da licitação da área de Libra pouco altera o interesse dos estrangeiros para os futuros leilões de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias. — São outros projetos e modelos de concessão os de logística, que envolvem outros players. Mas deve-se comemorar o resultado favorável e o crescimento da participação da iniciativa privada.

Outro problema, repetido pelos especialistas, que incomoda os investidores é o distanciamento do governo do mercado. Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos, diz ter escutado de vários investidores estrangeiros que está cada vez mais difícil convencer suas matrizes a entrarem em concorrências de infraestrutura no Brasil. E a principal reclamação dos estrangeiros, diz ele, além do alto risco dos projetos, é a escassez de diálogo com o governo para negociar melhores taxas de retorno.

— Que falta uma aproximação do governo com a iniciativa privada já é sabido há muito tempo. E com o estrangeiro, é ainda pior — diz Franco.

Historicamente, lembra Sergio Goldman, sócio da gestora de patrimônio Maximizar, a participação dos estrangeiros em projetos de infraestrutura é baixa no Brasil, o que implica desafio maior das autoridades.

— Em países emergentes, os investidores locais têm maior fatia nos projetos do setor, dada a vantagem competitiva de conhecer melhor as condições do mercado interno. Já nos desenvolvidos, a participação é maior porque tanto o ambiente regulatório como macroeconômico são mais estáveis. E embora o retorno financeiro seja menor, a percepção de risco é menor — avalia Goldman.

Bancos sacaram US$ 41 bi

A piora das condições macroeconômicas, com a inflação alta e as desconfianças sobre a política fiscal, adicionam mais dificuldade a esse processo.

— Há interesse dos estrangeiros nos projetos de infraestrutura do governo, mas agora há muito mais cautela, porque os riscos são maiores — resume o advogado Marlon Ieiri, sócio do escritório FH Cunha.

Prova disso, completa Goldman, é que apenas no segundo trimestre, os bancos internacionais retiraram do Brasil US$ 41 bilhões, a maior saída entre os emergentes, segundo dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS).

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