Projetos de Eike dependem cada vez mais do BNDES

FONTE: ABINEE

Há um mês, Eike Batista anunciou ao mercado o desejo de fechar o capital da CCX Carvão da Colômbia. O pagamento será feito com ações de outras empresas do grupo EBX em poder do empresário ao invés de dinheiro. A opção reacendeu no mercado preocupação que há meses circulava entre os investidores, a de que Batista estaria com dificuldades de conseguir crédito novo para seus negócios. Apesar dos questionamentos, o grupo continua na busca por fontes de recursos para desenvolver seus projetos, com ênfase no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

No momento, a MMX, mineradora de ferro do grupo, aguarda aprovação de financiamento de R$ 3 bilhões por parte do banco para a expansão das minas de Serra Azul (MG). A possível contratação desses recursos é esperada com expectativa por investidores que a consideram como um sinal de respaldo do BNDES ao empresário. A OSX, empresa de construção naval da EBX, também entrou com pedido de empréstimo no BNDES para a construção de uma plataforma de petróleo.

O BNDES tem sido fonte permanente de dinheiro para sustentar os projetos da EBX, em especial a partir da crise financeira de 2008, quando houve restrição de linhas de crédito privadas e as bolsas fecharam as portas para novos IPOs (ofertas públicas iniciais de ações). Desde que Batista listou a sua primeira empresa na bolsa brasileira, a mineradora MMX, em 2006, até o estaleiro OSX, em 2010, o empresário levantou, via IPOs, R$ 13,6 bilhões, conforme dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Batista captou no BNDES quase R$ 10 bilhões desde 2005. Os maiores aportes do banco ao grupo, de R$ 4,1 bilhões e de R$ 2,7 bilhões, ocorreram em anos de crise, 2009 e 2012, respectivamente. Em 2009, foram feitas as maiores operações do empresário com o banco, com destaque para financiamento de R$ 1,3 bilhão para a LLX no porto do Açu (RJ) e de R$ 1,4 bilhão para a termelétrica de Pecém (CE). Em 2012, a maior operação aprovada pelo banco para o grupo foi de R$ 1,3 bilhão para a OSX.

O apoio do BNDES e de outras fontes é uma alternativa importante para o grupo levar os projetos adiante. Dados do Valor Data, com base nos balanços do terceiro e do quarto trimestre de 2012, mostram que cinco empresas de capital aberto da holding EBX (MMX, OGX, MPX, LLX e OSX) tinham dívida líquida consolidada de R$ 15,8 bilhões até o fim do ano passado e uma posição de caixa de R$ 8,3 bilhões. Em 2012, a EBX disse ao Valor que a holding possuía US$ 9 bilhões em caixa. Agora, não informou a posição atual do caixa.

O principal ponto de preocupação de investidores com as empresas do grupo EBX é o fato de as companhias estarem em meio a processos que demandam altos volumes de investimentos para finalizar os projetos. O empresário desenvolve ativos de infraestrutura que exigem pesados investimentos, mas que, se não forem concluídos, nada valem. Esse é o pior cenário para o grupo. Na visão de um analista, Batista precisa atrair parceiros que injetem dinheiro ou vender pedaços para desenvolver outros negócios.

Procurado, Batista não se manifestou. Por email, o EBX informou estar em situação financeira confortável: “O grupo EBX está capitalizado, com recursos suficientes para garantir a execução dos projetos desenvolvidos no país. Todas as companhias de capital aberto do grupo vêm cumprindo seus planos de negócios em dia, com “funding” substancialmente equacionado para os próximos anos.” Uma preocupação no mercado, porém, é que o empresário teria contraído empréstimos como pessoa física com bancos privados e dado ações das suas empresas em garantia. Diante das quedas de sua “blue chip” – apenas no ano passado a OGX desvalorizou 67,84% -, circula no mercado a informação de que ele teria renegociado as garantias, mas estaria mais difícil conseguir novas linhas.

Nas últimas semanas, voltaram a circular informações sobre as negociações de Batista para vender ativos. Ele encontrou-se com executivos da Petronas, da Malásia. A petroleira estaria analisando a OGX há meses, mas ainda não se sabe se ou quando as partes chegarão a um acordo.

Mas a operação que pode ser concluída com mais rapidez é a venda do controle da elétrica MPX, braço de energia da EBX. É um ativo mais maduro e, pela primeira vez, Batista deverá deixar o controle de uma de suas empresas. A venda para a alemã E.ON, se confirmada, poderá dar fôlego novo ao empresário no mercado. Nos bastidores, as informações são de que a E.ON gostaria de comprar o controle sozinha, mas não pode fazê-lo pois teria de consolidar dívida líquida de R$ 5,4 bilhões da MPX, dos quais R$ 1,9 bilhão vencem este ano. A empresa estuda a emissão de debêntures ou de “bonds” para alongar o perfil da dívida.

Em junho de 2012, Batista chegou a afirmar que havia conseguido um sócio para sua mina de ouro, a AUX, mas esse negócio ainda não foi oficializado. No mercado, existe o consenso que há comprador para os ativos de Batista, mas não aos preços que o empresário deseja e que chegou a conseguir no passado. O mercado deixa isso claro na precificação dos ativos do EBX. No fechamento de capital da CCX, Batista está avaliando cada ação da companhia a R$ 4,31. Esse valor é próximo ao dobro da cotação de mercado na época do anúncio.

O Credit Suisse informou em relatório que a OSX é negociada na bolsa perto de seu valor de liquidação. E a OGX está perto das mínimas históricas. No caso da LLX, Batista tentou fechar o capital da empresa a preços de mercado, mas voltou atrás depois que um laudo de avaliação atribuiu valor à companhia superior ao da bolsa.

Um alento ao empresário é o fato de a liquidez financeira global para os negócios estar voltando. Na megaoperação de compra da Heinz por 3G e Berkshire, grandes bancos internacionais entraram financiando a operação. Outro ponto que tem chamado a atenção dos investidores está no papel de Batista como um importante financiador das próprias empresas. Na abertura de capital da OSX, em 2010, o mercado não concordou com os preços avaliados na operação e aceitou colocar recursos desde que com desconto. Para dar continuidade ao negócio e, como sempre, apostando em seus empreendimentos, o empresário comprometeu-se a aportar US$ 1 bilhão na companhia três anos depois, para complementar os recursos para os projetos. Do total, o empresário liberou US$ 250 milhões ano passado e vai aportar mais US$ 250 milhões em março.

Apesar do comprometimento de Batista em casos como da OSX, o mercado não tem informações precisas sobre a capitalização da holding EBX, de capital fechado. O que se sabe de mais recente foi o investimento de US$ 2 bilhões feito pelo Mubadala Development Company, empresa de investimento de Abu-Dhabi e de outros US$ 300 milhões da GE. Os recursos ingressaram em veículos offshore no ano passado.

Com o mercado cobrando resultados e penalizando as ações de suas empresas, Batista comprometeu-se, em 2012, a aportar mais US$ 1 bilhão, dessa vez na petroleira do grupo, a OGX. Recentemente, chamou um aumento de capital na MMX, que alcançou R$ 1,37 bilhão. O empresário garantiu a operação, mas não foi acompanhado pelos maiores sócios, a chinesa Wisco e a coreana SK Networks. Em nota ao Valor, a EBX afirmou: “Os recentes anúncios de aportes pelo controlador nas companhias do Grupo EBX enfatizam sua confiança nos empreendimentos em curso.”

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