Entrevista – Presidente da ASSOMMM é entrevistado e fala sobre o 1º leilão do pré-sal do Campo de Libra na Bacia de Santos

FONTE: JORNAL O PROPULSOR MARÍTIMO

20092013079

Em entrevista, Prof. Alexandre Gomes, atual presidente da ASSOMMM, fala sobre o 1º leilão do Campo de Libra em Santos. Leia abaixo:

O Propulsor Marítimo: Qual é a mensagem que o Governo dita aos brasileiros quando escolhe em realizar leilões da maior descoberta de petróleo da história do Brasil?

Prof. Alexandre Gomes: A mensagem é apenas uma a de que precisamos vender patrimônio para pagar dívidas. Acredito que boa parte deste dinheiro será para cobrir o rombo financeiro da Petrobras. O sentido da mensagem para aqueles que conhecem geopolítica mundial é a de que continuaremos a ser importadores de tecnologia. É a cultura submissa, do samba, da cerveja, do futebol perpetuando-se nas próximas gerações.  Nos últimos 20 anos, estamos privatizando áreas estratégicas de desenvolvimento e de segurança. As nossas empresas de telefonia já são estrangeiras, Embratel, Oi, Tim, Vivo, as estradas já são privatizadas para grupos espanhóis e chineses, nossos supermercados em sua maioria pertencem a grupos franceses, recebemos agora uma invasão de médicos cubanos só faltava mesmo o segmento do petróleo para fechar o ciclo da colonização.  Estamos importando desempregados de outros países e seus problemas ideológicos.

O Propulsor Marítimo: Existiria algum motivo político escuso por trás destas privatizações serem realizadas desta maneira tão rápida, ou seria unicamente por a Petrobras ainda não ter uma tecnologia para a sua exploração?

Prof. Alexandre Gomes: Dinheiro para cobrir o rombo Petrobras e dinheiro para investimento de papel visando o ano eleitoral que breve se inicia. Vamos fazer isso, vamos fazer aquilo. Todos os governos mentem, é parte de uma estratégia para angariar votos, mas esse Governo Federal abusa deste direito, está acabando com os empregos de qualidade do profissional marítimo offshore brasileiro.

O Propulsor Marítimo: O Propulsor Marítimo: Qual é a sua opinião, como cidadão brasileiro, sobre este leilão do pré-sal de Santos?

Prof. Alexandre Gomes: Minha opinião, aliás, que já falo para meus alunos há quatro anos em salas de aula e palestras, é a certeza de que terei que estudar o idioma mandarim se quiser me desenvolver profissionalmente no Brasil.

O Propulsor Marítimo: Pela sua experiência como Oficial Mercante e professor do setor marítimo há mais de 10 anos com várias pós-graduações o que o senhor tem a dizer sobre as reais vantagens e desvantagens deste leilão para o nosso país?

Prof. Alexandre Gomes: A Real vantagem é a injeção de capital nos cofres do Governo Federal que se honestamente e corretamente forem aplicados poderão propor uma melhor formação e qualidade de vida ao cidadão brasileiro. Não podemos nos esquecer da “Maldição do Petróleo” que assola nações produtoras de petróleo no mundo civilizado ou não, despertando cobiça e guerras em função dos lucros obtidos no negócio. A grande desvantagem é o próprio leilão em si, utilizando de coação, Forças Armadas para permitirem que o leilão ocorra… A pergunta que se faz é por quê? Não é uma decisão de um Governo Eleito?  Então, sabemos que existe uma grande massa de brasileiros contrários. Por que não foram ouvidos? Parece algo imposto pelo Governo muito comum em ditaduras militares.

O Propulsor Marítimo: Como ficaria após a privatização que está acontecendo hoje, a condição do trabalhador marítimo brasileiro perante os estrangeiros que adentrarão para atuar no Campo de Libra?

Prof. Alexandre Gomes: Muito boa pergunta, hoje de acordo com dados do Conselho Nacional de Imigração aproximadamente 49.000 estrangeiros conseguiram vistos de trabalho para a área de petróleo e gás, apenas no período de 2010 a 2012.  Quase todos ocupando funções de gerência, superintendência e supervisão e plataformas e empresas estrangeiras no Brasil. De forma maciça o que o Governo Federal divulga como geração de empregos são os subordinados. Raríssimos são os brasileiros que são realmente colocados em bons postos de trabalho. Para complicar esta situação, no governo Lula foi criado um decreto de lei baseado no acordo do MERCOSUL, abrindo as portas para os cidadãos Peruanos, dando-lhes garantias trabalhistas no Brasil iguais as do cidadão brasileiro. Com estas garantias, os Peruanos invadiram o Brasil no segmento marítimo. Hoje temos já centenas de marinheiros e Oficiais desempregados por conta desta legislação que privilegia a contratação de mão de obra estrangeira no Brasil. Imagine o que vai ocorrer daqui há, por exemplo, cinco anos… Quantos postos de trabalho serão gerados? Quantos serão ocupados por brasileiros? Quantos serão os postos gerados e ocupados por brasileiros com poder de decisão como diretorias, gerências ou superintendências?

O Propulsor Marítimo: Como o Governo Federal poderia trabalhar efetivamente para garantir e principalmente proteger os empregos e as boas condições de trabalho para os trabalhadores brasileiros na prospecção e extração do petróleo no Campo de Libra?

Prof. Alexandre Gomes: É simples, não é fácil.  Basta ao Governo Federal cumprir a RN 72 do Conselho Nacional de Imigração que estabelece procedimentos para emissão dos vistos de trabalho. Como exemplo da conivência e omissão do Governo Federal, enviamos vários Ofícios para as Capitanias dos Portos de vários portos, e apenas uma, a Capitania do Rio de Janeiro, a reencaminhou para o Setor de Fiscalização de trabalho estrangeiro do Ministério do Trabalho, que é o responsável legal por essa fiscalização. As demais, se quer, tiveram a educação civil ou respeito marinheiro de responderem a estes Ofícios.  Tudo é um teatro do Governo Federal. O Ministério do Trabalho alega não possuir lanchas para a fiscalização e tudo acaba ficando no esquecimento.

O Propulsor Marítimo: Perante a atual e delicada situação de desemprego que aflige milhares de trabalhadores do mar, que são na sua maioria pais de família e profissionais competentes, a privatização de hoje a tarde, representaria um avanço ou um retrocesso do ponto de vista estratégico – comercial para o Brasil?

Prof. Alexandre Gomes: Com os modelos de políticos que possuímos infelizmente continuaremos a depender do investimento estrangeiro no Brasil para gerarmos emprego. É um modelo que necessita da segurança jurídica do Governo Federal para dar prosseguimento a geração de empregos para brasileiros.

Bem vindo ao Brasil Colônia do século vinte e um, não está havendo evolução de tecnologia no Brasil, o que existe é uma maior dependência.  Está claro que a esmagadora maioria dos políticos brasileiros não sabe o que é ser brasileiro. Falta patriotismo, que sobra na neurose do futebol.

O Propulsor Marítimo: O senhor como atual presidente da ASSOMMM – Associação dos Oficias de Máquinas da Marinha Mercante – deve presenciar diariamente nesta Associação, a grande quantidade de desempregados que ali chegam com o intuito de obterem informações e orientações a respeito da profissão mercante. O senhor acredita que a geração de novos postos de trabalho será realmente concretizada com este novo leilão?

Prof. Alexandre Gomes: O Brasil é um país primitivo em sua gestão marítima. Os responsáveis pela formação e gestão do pessoal marítimo, portuário e pesca é a Marinha do Brasil, entidade militar que desconhece por base o que é a atividade marítima, em seu aspecto de política de fretes, seguros e de consolidação de cargas. Como consequência dessa gestão desastrosa que ocorre até hoje, perdemos espaços de carga em navios das poucas empresas brasileiras que restaram.  A frota mercante estrangeira, que opera na costa brasileira, é infinitamente superior operacionalmente falando que a nossa. Navios mais rápidos com menor consumo de combustível, logística de suprimentos mais ágil, processos interligados, tripulações mais bem preparadas, sistemas de captação de carga muito superiores aos das empresas brasileiras. Hoje, pagamos cerca de 20 bilhões de dólares anuais em fretes em embarcações estrangeiras! Não possuímos uma Guarda Costeira. A Marinha do Brasil “faz o papel de guarda costeira”. Uma vergonha!  O Brasil possui uma Marinha da época do Império e trata a Marinha Mercante como se fosse um apêndice. A formação marítima é basicamente formada por militares da reserva, que no caso dos Oficiais, fazem um curso de 4 meses de “adaptação” e tornam-se Imediatos e Comandantes da Mercante.

Alguns militares se tornam “Port States” ou, instrutores em sala de aula, falando o que nunca vivenciaram na vida mercante, mas por possuírem um STCW, posam de Oficiais Mercantes. “Disciplina militar”, não me lembro desta necessidade no exercício da profissão. Perdemos uma frota mercante de quase 600 navios nas décadas de 70 e 80 por causa desta incompetência.  Falta de visão estratégica e geopolítica na época e ainda continua faltando hoje. Pior, é que não vejo qualquer iniciativa deste modelo imperial mudar.   A Marinha Mercante no Brasil, em sua essência, existe para gerar um cabide de empregos para militares da reserva. Esta é a verdade do Brasil marítimo, Brasil Colônia do século 21.

 O Propulsor Marítimo: De uma forma objetiva e clara, a profissão de mercante no Brasil ainda é uma boa opção para os jovens que buscam uma profissão rentável e promissora?

Prof. Alexandre Gomes: Sim, é uma grande profissão. Desde que a Marinha de Guerra saia da gestão de formação e aperfeiçoamento. Precisamos evoluir como sociedade. A doutrina militar não se aplica em fretes marítimos ou seguros. Se a visão estratégica militar da atividade marítima do Brasil não mudar radicalmente, só restará, em no máximo 10 anos, uma empresa de navegação nacional: a Transpetro. Que por ser estatal e estratégica ficará em cena independente de apresentar resultados operacionais positivos ou negativos.

Está tudo errado no negócio marítimo no Brasil. Para exemplificarmos o mundo do Império da Marinha Mercante do Brasil, o Oficial de Máquinas não comanda, não possui o quarto galão e com raríssimas exceções, não participa de reuniões de Diretoria. São meros prestadores de serviço do Comando. Estamos 50 anos atrasados. O mundo tecnológico e corporativo dos países de ponta, descobriram já há meio século, que a posição do Chefe de Máquinas é tão importante como a do Comandante, por isso perdemos 600 navios. Só falta o chicote. Mas como já disse, nossa Marinha é da época do império, quando a propulsão dos navios era eólica.

O Propulsor Marítimo: Estamos praticamente chegando ao fim de 2013, e para finalizar esta entrevista, qual a mensagem que o senhor tem para deixar aos leitores do Jornal O Propulsor Marítimo sobre este período de tantos altos e baixos na profissão mercante?

Prof. Alexandre Gomes: A mensagem que passo a todos os brasileiros mercantes ou não, é a de cobrança às autoridades Federais, da mudança desta sistemática de privilegiar a contratação do profissional pronto no exterior, em detrimento de formar com qualidade o cidadão brasileiro. Que lutem, com todas as forças para abrirem novos mercados de trabalho de qualidade para os cidadãos brasileiros das gerações futuras; que não tenham medo de expor suas ideias; que não se deixem humilhar em território brasileiro por cidadãos estrangeiros; que se faça respeitar pelo conhecimento técnico e pela educação, mas que se necessário for, seja inflexível na defesa dos interesses nacionais, e que finalmente, que estejam preparados para mudanças irreversíveis em seus estilos de vida em função desta invasão estrangeira que hoje ocorre.

Lembrem-se falamos a língua portuguesa há 500 anos, em apenas 15 anos aquele que não souber o idioma inglês será isolado da sociedade. Por culpa dos governos imediatistas e corruptos, estamos perdendo nossa identidade brasileira.

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