Dilma responde a FHC e diz que herança de Lula é “bendita”

Fernando Henrique Cardoso disse que Lula, “nos anos de bonança, em vez de aproveitar as taxas razoáveis de crescimento para tentar aumentar a poupança pública e investir no que é necessário para dar continuidade ao crescimento produtivo, preferiu governar ao sabor da popularidade”.

O texto, intitulado “Herança pesada”, foi publicado no domingo nos jornais O Estado de S.Paulo e O Globo.

Dilma considerou que foi “citada de modo incorreto” pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e emitiu nota por considerar “ser necessário recolocar os fatos em seus devidos lugares”.

“Recebi do ex-presidente Lula uma herança bendita… Recebi uma economia sólida, com crescimento robusto, inflação sob controle, investimentos consistentes em infraestrutura e reservas cambiais recordes”, disse ela, na nota divulgada pela Presidência da República nesta segunda-feira.

Entre as críticas a Lula, Fernando Henrique destacou a “desorientação da política energética” e disse que o Brasil hoje está “gastando mais divisas do que antes com a importação de óleo” e que “a produção de etanol se desorganizou de tal ponto que estamos importando etanol de milho dos Estados Unidos!”

O setor energético citado por Fernando Henrique foi responsável por uma das maiores crises do seu governo, o racionamento de energia, em 2001. Na época, a situação foi creditada a uma prolongada estiagem e à falta de planejamento e investimento no setor.

“Não recebi um país sob intervenção do FMI ou sob ameaça de apagão”, disse Dilma, citando o Fundo Monetário Internacional, que integrou diversos esforços de ajuda financeira ao Brasil nos anos 1990 e início dos anos 2000. No governo Lula, o país tornou-se credor da instituição.

“PESADA COMO CHUMBO”

O tucano disse ainda ser “longa a lista do que faltou fazer quando seria mais fácil”, referindo-se à conjuntura econômica durante boa parte do governo do petista. Afirmou, ainda, que Lula “deixou de lado as reformas politicamente custosas” e “deixou de racionalizar as práticas tributárias”.

O ex-presidente citou também o que chamou de “hegemonismo” do PT e “a popularidade à custa do futuro” como responsáveis por “projetos de impacto”, comparados por ele a “certos períodos do autoritarismo militar”.

“Projetos que não saem do papel ou, quando saem, custam caríssimo ao Tesouro e têm utilidade relativa”, disse Fernando Henrique, que citou a formação de estaleiros nacionais para produção de navios-tanque para Petrobras como “exemplo clássico”, e também atrasos na transposição do rio São Francisco, da Transnordestina e da fábrica de diesel à base de mamona.

“É pesada como chumbo a herança desse estilo bombástico de governar que esconde males morais e prejuízos materiais sensíveis para o futuro da Nação”, escreveu o ex-presidente.

Ao rebater as críticas, Dilma disse ter recebido “um país mais justo e menos desigual… mais respeitado lá fora graças às posições firmes do ex-presidente Lula no cenário internacional”.

“Um democrata que não caiu na tentação de uma mudança constitucional que o beneficiasse. O ex-presidente Lula é um exemplo de estadista”, disse Dilma, citando a emenda constitucional aprovada no governo Fernando Henrique que permitiu a reeleição do tucano e cuja aprovação foi alvo de denúncias de corrupção.

Dilma e Fernando Henrique mantinham uma relação cordial desde a chegada dela à Presidência, em janeiro de 2011. No ano passado, em meio às celebrações de 80 anos do tucano, a presidente divulgou uma carta elogiosa ao tucano, na qual destacou “o democrata”, cuja “crença do diálogo como força motriz da política… foi essencial para a consolidação da democracia brasileira”.

“Não escondo que nos últimos anos tivemos e mantemos opiniões diferentes, mas, justamente por isso, maior é minha admiração por sua abertura ao confronto franco e respeitoso de ideias”, escreveu Dilma na ocasião.

(Por Hugo Bachega; Edição de Maria Pia Palermo)

 

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