Descaso com infraestrutura tira R$ 7 bi do centro-oeste

FONTE: CONTEUDO CLIPPING MP

Centro-Oeste precisa de R$ 36 Bi até 2020

Autor(es): SIMONE KAFRUNI – Correio Braziliense – 29/10/2013

Apesar de responder por mais de 40% da produção agrícola e do superavit comercial do país, a região convive com malha logística precária. Investimentos na modernização da rede podem gerar economia de custos de R$ 7,2 bilhões

Responsável por 40% do superavit da balança comercial brasileira, e com participação de 41% na produção agrícola nacional, o Centro-Oeste não colhe os frutos de contribuir, há anos, para o crescimento do país. Pelo contrário, a infraestrutura da região é uma das piores do Brasil. Com estradas e ferrovias em condições deploráveis, o setor produtivo gasta R$ 31,6 bilhões por ano com o transporte de cargas, o equivalente a 8,7% do valor da produção local. Até 2020, esse montante praticamente dobrará, alcançando R$ 60,9 bilhões. Essa despesa poderá ser R$ 7,2 bilhões menor, no entanto, se a logística for adequada.

A despeito das dificuldades extremas em escoar a produção, o Produto Interno Bruto (PIB) regional quase triplicou entre 2002 e 2010, passando de R$ 129,6 bilhões para R$ 350,5 bilhões. A expansão de 170% na economia só não foi maior do que a registrada no Norte (190%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

(IBGE). “O governo investe muito pouco no Centro-Oeste. Não tem nem sequer propostas para ampliar a competitividade da região que mais contribui para o superavit comercial do país”,  lamenta o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Mato Grosso (Fiemt), Jandir Milan.

“Os gargalos logísticos estão num ponto em que estamos perdendo contratos. A China cancelou uma importação de 2 milhões de toneladas de soja por conta do estrangulamento dos portos do Sul e do Sudeste para escoar a produção. Os produtores do Centro-Oeste tiverem prejuízo de
R$ 20 por saca, porque quase 90% das cargas da região são exportadas por lá”, revelou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Pedro Alves de Oliveira.

A presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Kátia Abreu, destacou que, embora 56% da produção nacional situem-se no chamado Arco Norte, acima do paralelo 16, apenas 14% são escoados pelos portos do Norte e do Nordeste. “Só com investimentos maciços em infraestrutura, aproveitando os ‘mississipis’ brasileiros, será possível inverter essa lógica, baixar os custos do transporte e preservar o meio ambiente”, afirmou.

Escoamento

Já que o poder público não se mexe, o setor produtivo decidiu tomar a frente. Estudo da Macrologística, encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que será divulgado hoje, em Brasília, aponta que o Centro-Oeste precisa de R$ 36,4 bilhões em investimentos em infraestrutura até 2020. É o maior valor entre as diversas regiões do país, sem contar o Sudeste, cujo estudo ainda não está pronto, mas que já tem rede logística mais desenvolvida do Brasil. O montante é mais que o dobro das necessidades de R$ 15,2 bilhões identificadas na região Sul. O Nordeste carece de R$ 25,8 bilhões e o Norte, de R$ 13,57 bilhões.

Segundo o consultor da Macrologística, Olivier Roger Sylvain Girard, coordenador do Projeto Centro-Oeste Competitivo, “o trabalho oferece o subsídio necessário para auxiliar o poder público a planejar o futuro do sistema logístico, de forma que otimize a redução dos elevados custos de transporte”. O estudo relaciona 106 projetos, distribuídos por 10 grandes eixos logísticos de integração (veja mapa acima), que contribuiriam para diminuir o tempo gasto no escoamento da produção, tornando-o mais barato e eficiente. Se concluídos, esses eixos beneficiariam 15 grandes cadeias produtivas da região.

Girard destacou que as obras têm potencial para reduzir os gastos anuais de transporte em R$ 7,2 bilhões, com base na movimentação de cargas projetadas para 2020. No entanto, de acordo com o levantamento, apenas 19 das 106 obras prioritárias estão em andamento, o que equivale a 16,4% dos investimentos necessários. Outras 70 estão em fase de projeto ou apenas nos planos do poder público. “Quando concluídas, as obras formarão 10 eixos compostos por dois ou mais modais de transporte (ferrovia, hidrovia, rodovia e portos), que garantirão o escoamento eficiente da produção, da porta da fábrica ao embarque marítimo”, explicou.

Competitividade

Os maiores investimentos deveriam ser destinados a ferrovias e portos. O transporte ferroviário demandará R$ 17,5 bilhões, 24,5% do total, para a execução de 26 projetos. A estrutura portuária exigirá R$ 8,4 bilhões para tirar 24 obras do papel nos próximos anos. O maior número de ações consideradas urgentes, no entanto, está no modal hidroviário. São 34 empreendimentos, ao custo de R$ 6,7 bilhões.

Com a ativação do transporte fluvial, as cargas do Centro-Oeste poderão ser escoadas pelos portos do Norte do país. “Será uma economia de quase 5 mil quilômetros. Hoje, a produção é embarcada no Sul para subir de novo pelo mar. Na hora em que conseguirmos usar terminais no Maranhão ou no Pará, o prazo de entrega será reduzido e o custo no frete também. Teremos muito mais competitividade”, estimou Pedro Alves de Oliveira, da Fieg.

Os empresários apostam que, uma vez resolvidos os gargalos logísticos, a região vai se beneficiar com a vinda de mais indústrias e o Centro-Oeste terá produção mais diversificada. “Nós já aumentamos muito o número de fábricas. Em Goiás, eram 12 mil em 2005. Em 2012, já havia 21 mil. Temos potencial para mais. A projeção de crescimento é fantástica, mas precisamos urgentemente de melhorias na infraestrutura”, ressaltou Oliveira.

Principais setores 

A produção industrial do Centro-Oeste movimentou R$ 81,6 bilhões em 2010. Desse total, 75% estavam concentrados em 15 cadeias produtivas instaladas na região: adubos e fertilizantes, algodão, avicultura, bebidas, bovinos, calcário, cana de açúcar, cobre, ferro e aço, madeira, milho, petróleo e derivados, químicos industriais, soja e veículos e autopeças. Na agropecuária, as cadeias de cana, bovinos, soja, milho e algodão representam 95% da  produção regional.

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