Crise do transporte marítimo faz outra vítima

FONTE PORTOS E NAVIOS – Matéria publicada em 05 de setembro de 2016

A derrocada cada vez mais provável de uma das maiores transportadoras marítimas de contêineres do mundo pode trazer um alívio temporário a um setor abatido pela retração do comércio global. E também pode acelerar um processo de consolidação que já está em curso.

Na sexta-feira, a Hanjin Shipping Co. entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos para evitar que suas embarcações sejam confiscadas por credores. Ela apresentou o pedido no Tribunal Federal de Falências da cidade de Newark, no Estado de New Jersey, onde uma audiência preliminar está agendada para amanhã. Na quarta-feira passada, a empresa já havia entrado com pedido similar na Coreia do Sul. A lei americana garante que as companhias possam proteger seus bens nos EUA dos credores, enquanto procuram vender ou reestruturar seus ativos em seu país de origem.

O pedido foi apresentado enquanto credores apreendiam navios e operadores de terminais recusavam-se a movimentar cargas da Hanjin, deixando 45 navios da companhia com mais de 500 mil contêineres cheios de produtos sem poder atracar.

A Hanjin é a maior empresa de transporte marítimo da Coreia. Ela tem aproximadamente 60 linhas regulares ao redor do mundo e opera 140 embarcações de contêineres ou granéis, segundo documentos entregues aos tribunais. Ela é a nona maior transportadora de contêineres do mundo, com cerca de 100 milhões de toneladas de carga movimentadas por ano.

A quebra da Hanjin seria a maior falência de uma transportadora de contêineres da história.

Apesar de poder trazer alívio no curto prazo, um possível colapso da Hanjin não deve resolver o maior problema do setor: um excesso de capacidade em torno de 30%, que vem deixando espaços vazios nas embarcações.

A notícia chacoalhou a já abatida indústria, concentrada principalmente na Europa e na Ásia. Em apenas um ano, os donos de navios, que estavam encomendando embarcações em massa, passaram a transformá-las em sucata. Os estaleiros foram encolhendo e as grandes empresas vêm formando alianças para compartilhar navios, redes e escalas para reduzir curtos.

“O pedido judicial da Hanjin traz à tona o núcleo do problema do setor: um mercado com excesso de oferta, onde navios demais brigam por cargas em um mundo em que o comércio mal cresce”, diz Basil Karatzas, da Karatzas Maritime Advisors Co., uma consultoria americana.

Uma alta registrada nos valores do frete após o pedido de recuperação judicial da Hanjin pode dar algum alento a operadores europeus que ainda contam com algum dinheiro em caixa, como a Maersk Line, da A.P. Møller-Maersk A/S, a CMA CGM SA e a Hapag-Lloyd AG.

Mas as dificuldades da Hanjin também significam problemas para as donas dos navios arrendados por ela, como a Danaos Corp., Navios Maritime Partners LP e Seaspan Corp. As três têm uma exposição conjunta de mais de US$ 1 bilhão à Hanjin, de acordo com executivos do setor.

“Como todo mundo, ainda estamos esperando para ver qual será o resultado final desse caso”, diz uma porta-voz da Navios.

A situação da Hanjin está disseminando temores entre varejistas do mundo todo durante o movimentado período em que fazem estoques para a época de festas de fim de ano. Pode haver “milhões de dólares” em bens presos nos navios, segundo a Federação Nacional de Varejo dos EUA.

A empresa sul-coreana transporta 3% dos contêineres do mundo todo e até 10% dos que trafegam entre a Ásia e a Europa. Mas 61 de seus 98 navios são fretados, não próprios. Se a Hanjin terminar liquidando seus ativos em vez de reestruturar a empresa, esses navios acabarão absorvidos por outras transportadoras.

E embora o pedido de recuperação judicial da Hanjin tenha feito com que os fretes para embarque imediato disparassem – em até 40% nas rotas da Ásia para as Américas, segundo a consultoria Drewry Shipping Consultants Ltd. -, eles não devem se sustentar. Lars Jensen, diretor-presidente da SeaIntel Consulting, em Copenhague, acredita que o efeito da recuperação judicial da Hanjin no frete seja “mínimo” este mês e que as tarifas permaneçam abaixo dos níveis considerados sustentáveis.

Inicialmente, os mais afetados devem ser os varejistas que esperam pelos produtos para o período do fim de ano. Sem saber se serão pagos, portos e operadores da Coreia do Sul, China, EUA, Espanha e outros países têm se recusado a movimentar as cargas.

Serviços de atracação e descarregamento dos navios da Hanjin recomeçaram nos principais portos da Coreia do Sul na sexta-feira, depois que o governo afirmou que as autoridades portuárias iriam garantir os pagamentos para os prestadores de serviços.

A Danaos tem uma exposição de US$ 560 milhões à Hanjin. O diretor operacional, Iraklis Prokopakis, diz esperar que o tribunal de Seul decida sobre os navios fretados da empresa no fim do mês. “Teremos que decidir se fretaremos os navios para outras empresas e cobraremos os prejuízos da Hanjin ou se continuamos com ela com diferentes tarifas de frete, provavelmente menores”, diz ele. “É um revés, mas não um desastre total.”

A fabricante americana de artigos esportivos New Balance tem hoje um grande volume de bens em trânsito com a Hanjin e está tentando reaver os produtos, diz a porta-voz, Amy Dow.

Mas executivos do setor dizem que qualquer queixa contra a Hanjin pode levar até dez anos para ter uma solução. E, segundo Prokopakis, se a Hanjin for liquidada, “nós não recuperaremos uma parte substancial daquilo que reivindicamos”.

A Seaspan não respondeu a pedidos de comentário.

 

Fonte: Valor / The Wall Street Journal

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