China compra 3 milhões de hectares da Ucrânia, 5% do país, e também investe em terras no Brasil

FONTE: CIDADE BIZ

Estratégia do capitalismo de Estado chinês não se move pelo lucro, ainda, mas pela garantia de acessos vitais a alimentos, energia e matérias-primas

Sabem aquele ditado: a caravana passa e os cães ladram? Hoje, é a China passando. Enquanto o mundo discute as ondas do dólar, o baixo astral da Zona do Euro, a inflação, taxa de retorno de concessões, os chineses, na maciota, estão comprando tudo – de terras aráveis a campos de petróleo. O ultimo grande negócio é de causar vertigem.

 Uma estatal chinesa adquiriu os direitos sobre três milhões de hectares de terras aráveis da Ucrânia, equivalentes a uma Bélgica, ou a 5% do território da mais rica, depois da Rússia, das antigas repúblicas da União Soviética. A compra de terras férteis no mundo, mesmo no Brasil, por fundos sob a influência de governos não tem sido incomum desde a grande inflação dos alimentos de 2007 e 2008.

 Mas nunca houve nada com a dimensão do negócio entre a XPCC, como é conhecida a China Xinjiang Production and Construction Corps, e a firma agrícola ucraniana KSG Agro. De fato, o negócio foi entre os dois governos, antecedido de lei votada pelo Parlamento da Ucrânia.

 Conhecida pela fertilidade de suas terras, com alta produtividade das lavouras de trigo e de grãos processados como ração para porcos – um dos principais alimentos da cozinha chinesa -, a Ucrânia vinha há tempos negociando o acordo, que tem desdobramentos geopolíticos com a Rússia, com quem mantém um relacionamento conturbado, e com a União Europeia, com a qual negocia maior integração, eventualmente a adesão à Zona do Euro, uma pretensão hostilizada pelos russos.

 No auge do conflito por maior autonomia da Ucrânia, anos atrás, o governo de Vladimir Putin cortou o fornecimento de gás. E o governo ucraniano ameaçou retaliar fechando os gasodutos russos que passam pelo país. A Rússia é o maior fornecedor do gás de toda a Europa.

 É neste vespeiro que a China do presidente Xi Jinping se enfiou, mas com inteligência. Conforme o pragmatismo ensinado pelo grande líder da abertura econômica chinesa Deng Xiaoping, segundo o qual não importa a cor do gato, desde que cace o rato, Jinping foi a Moscou, duas semanas atrás, fechar com Putin o fornecimento de gás e petróleo num acordo de longo prazo, bancado pela China.

 É como se distribuísse doce a quem importa para garantir à China o abastecimento de comida à população e de energia e matérias-primas ao seu formidável parque fabril. O capitalismo de Estado chinês não se move pelo lucro, ainda, mas pela garantia de acessos vitais.

Horizontes desconhecidos

 O mundo chinês é novo, com alcance e horizontes desconhecidos. Os EUA enxergam expansionismo, tanto que o planejamento estratégico do Pentágono, validado pelos Partidos Democrata e Republicano, prevê o deslocamento de dois terços da frota naval para o Pacífico até fim da década, inclusive com a abertura de uma nova base na Austrália.

 As engrenagens desse jogo costumam ser ásperas – operadas por mãos de gato, como a belicosa Coreia do Norte, ou pelo renascimento do nacionalismo japonês, ilustrado pela disputa de alguns rochedos na fronteira marítima entre o Japão e a China. Com os EUA, é como se a relação envolvesse cumplicidade e desconfiança entre as partes.

 Aos demais, que estão de fora, convém não tomar partido e aproveitar as oportunidades. Foi o que o governo da Índia, cuja parceria no BRICS oculta uma longa relação de conflitos, outra vez constatou.

O objeto da cobiça dos indianos era uma fatia no consórcio formado pelas petroleiras Exxon e ConocoPhillips, ambas dos EUA, a inglesa Shell, a francesa Total e a italiana ENI para a exploração de gás e óleo noutra ex-república soviética, o Cazaquistão, na Ásia Central.

 A ConocoPhillips decidiu vender sua parte. A estatal da Índia ONGC anunciou que comprava. O governo cazaque tinha direito de veto. Num longo encontro entre o presidente cazaque Nursultan Nazarbayev, que manda no país desde a era soviética, e o chinês Jinping, há poucos dias, a Índia foi passada para trás pela China National Petroleum.

 A disputa pode repetir-se no leilão do campo de Libra, pois tanto a indiana ONGC como a chinesa CNPC (mais duas estatais da China, a CNOOC e a Sinopec) estão entre as dez empresas inscritas, além da Petrobras. A China investe normalmente onde há facilidades para as exportações de suas indústrias, que já despontam no Brasil.

Chinese, come here!

 Com US$ 3,5 trilhões de reservas, a China vem trocando dólares por ativos reais mundo afora desde a crise de 2008. Além do acordo na Ucrânia, que começa com 100 mil hectares, a China já comprou 324 mil hectares na Argentina, atuando por meio da empresa Beidahuang, e investiu US$ 375 milhões em lavouras de soja no Brasil (e US$ 1,2 bilhão na Argentina) com a Chongqing. Em troca de 200 mil barris ao dia por dez anos, a Petrobras recebeu US$ 10 bilhões em 2009.

 Sinal dos tempos: de “Yankees, go home!” para “Chinese, come here!”

Cobiça chega à internet

 Os chineses estão em toda parte. Na África, os grandes projetos de agricultura e infraestrutura são tocados por firmas chinesas e com investimentos de bancos da China, não raro com mão-de-obra trazida de lá, gerando protestos das populações locais e denúncias de que está em curso um novo tipo de colonialismo.

 A próxima etapa são os EUA, onde o Congresso impôs vetos ao investimento chinês em áreas consideradas chaves, como energia, telecomunicações e softwares. Com uma estratégia de comer pelas beiradas, a China já investe em energia não convencional no Canadá, abre o capital de suas empresas na Bolsa de Nova York e cobiça o bilionário mercado da internet.

 O Alibaba, versão chinesa do eBay, lançou em Cingapura sua plataforma global Taobao, após estagiar em Taiwan e Hong Kong. E pensar que 30 anos atrás nosso PIB era maior que o da China. Eles avançaram. Nós nos arrastamos.

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