ABIMAQ PREVÊ DESMOBILIZAÇÃO DA INDÚSTRIA E DE CENTROS TECNOLÓGICOS COM A QUEBRA DO CONTEÚDO LOCAL

FONTE PETRONOTÍCIAS – Matéria publicada em 23 de fevereiro de 2017

Por Daniel Fraiha (daniel@petronoticias.com.br) –

Os ministros que tomaram a decisão de acabar com a maior parte do conteúdo local saíram da reunião acreditando que deram um grande passo para incentivar os investimentos no Brasil, “tornando os leilões mais atrativos”, mas ainda não conseguiram olhar a questão de maneira macro.

Enquanto algumas poucas petroleiras virão felizes e contentes para arrematar áreas exploratórias, a indústria nacional e os trabalhadores brasileiros do setor de óleo e gás ficarão à míngua. O resultado natural dessas medidas é a desmobilização de empresas, fábricas e centros tecnológicos, como aponta o presidente do Conselho de Óleo e Gás da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), César Prata. Ele conta que receberam a decisão com surpresa, por conta das péssimas consequências que deverão ocorrer a partir dela. “Significa que vamos começar a desmobilizar as empresas e os centros de pesquisa, como aqueles instalados no Fundão. Isso tudo ficará sem uso. As engenharias, que faziam detalhamento, especificações etc, não serão mais necessárias”, diz.

– Como a Abimaq recebe a decisão do governo em relação ao conteúdo local?

Recebemos com surpresa, porque isso foi o resultado da pressão de quatro ou cinco empresas de petróleo estrangeiras. Sabemos que a Petrobrás não participará nos próximos leilões, porque ela está desinvestindo, então eles são interessantes exclusivamente para essas poucas empresas estrangeiras. E foram somente elas que fizeram esse lobby junto ao governo para convencê-lo de abrir mão de contrapartidas.

Nossa surpresa hoje é de que eles já não pagam nenhum tipo de tributo praticamente. Nós, que somos indústria, pagamos 43% de tributos, taxas e obrigações no Brasil. Muito diferente das petroleiras, que têm o Repetro, que os libera dos impostos nas compras, aquisições e importações. Então, nesse sentido, não estão contribuindo para o caixa do governo.

Já é uma renúncia fiscal indecente feita para eles. E essa renúncia é feita justamente para pedir uma contrapartida em empregos. A nossa surpresa foi o governo concordar em não haver contrapartida.

Aqueles percentuais definidos pelo governo nos preocupam especificamente em relação às Unidades Estacionárias de Produção (UEPs), que são as plataformas. Ali tem a maior concentração de conhecimento, engenharia e equipamentos. Mas esse percentual global de 25% já nos indica de antemão que não vai haver equipamentos nacionais, porque tudo será cumprido com serviços.

– Qual será o impacto disso na indústria brasileira?

Não havendo horizonte com perspectivas de demanda para a indústria que já existe nesse médio prazo, que são esses leilões de 2017 já sob essas regras, significa que vamos começar a desmobilizar as empresas e os centros de pesquisa, como aqueles instalados no Fundão. Isso tudo ficará sem uso. As engenharias, que faziam detalhamento, especificações etc, não serão mais necessárias. A não ser que o CNPE [Conselho Nacional de Política Energética], que vai formalizar essa decisão, questione essa proposta, tudo indica que haverá uma forte desmobilização da indústria.

Os negócios oriundos desses leilões vão acontecer daqui a cinco ou seis anos, mas, sem esse horizonte, a indústria já começa a se desmobilizar desde agora. Calculamos que esse processo e o efeito dele nas cadeias produtivas deva gerar 1 milhão de desempregados, para além dos mais de 12 milhões de desempregados atuais.

Hoje são cerca de 900 empresas fornecedoras de máquinas e equipamentos neste setor no Brasil. Muitas não são exclusivas dele, então vão apenas fechar suas divisões de óleo e gás. Enquanto outras, que fabricam itens apenas para esse setor, não terão o que fazer.

– Como pretendem reagir a isso?

A Abimaq está junto do movimento Produz Brasil, com as outras associações e de federações de empresas, discutindo alternativas. Paralelamente, estamos notando movimentos de federações de trabalhadores querendo saber que medidas serão tomadas, assim como as associações de engenharia, que vão acionar seus contatos parlamentares. Todas essas entidades têm suas frentes parlamentares. Assim como existe a frente pró-máquinas, com 170 deputados, tem a de engenharia, com 250 deputados. Então imagino que essas frentes e os trabalhadores ligados à indústria acionem seus contatos no parlamento. Como a decisão foi tomada por cinco ministros, não tem mais ao que recorrer, a não ser ao presidente. Os trabalhadores têm os recursos dos movimentos de rua, mas nós, empresários, não temos. Então nessas horas o importante é unir forças, já que há muita gente prejudicada.

 

 

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