A renegociação da OGX e a imagem do Brasil

FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

No final de setembro, o ministro Guido Mantega (Fazenda) afirmou num seminário em São Paulo que “a situação da petroleira OGX já provocou um problema para a imagem do país e para a Bolsa de Valores, que teve uma deterioração”.

A declaração de Mantega chamou a atenção, porque o empresário Eike Batista era um dos “eleitos” dos governos Lula e Dilma. O ministro, no entanto, só estava atestando o óbvio. A derrocada de Eike é péssima para a imagem do Brasil no exterior.

Desde então, as atitudes do empresário na confusa reestruturação da dívida da OGX só fizeram reforçar a má impressão.

Bem ao seu estilo, Eike vem promovendo um troca-troca dos seus negociadores, que conseguiria exasperar até o mais experiente interlocutor.

A situação já era muito delicada –como costuma ser em episódios de recuperação judicial, ainda mais de uma empresa desse tamanho.

Os investidores internacionais que apostaram US$ 3,6 bilhões na OGX, incluindo pesos pesados como Pinco e BlackRock, vinham com a impressão de que bancos privados, governo e Eike se acertaram para deixar a fatura da quebra do império X na sua conta.

Mesmo assim, sentaram na mesa para negociar. A sequência dos fatos que ocorreram depois é até difícil de acompanhar.

Eike se desentendeu com André Esteves, do BTG Pactual, e trocou seu principal assessor financeiro por Ricardo K, da Angra Partners.

Depois, K convenceu Eike a demitir Roberto Monteiro, diretor de relações com investidores da OGX, que tinha apresentado aos credores a primeira proposta de reestruturação da dívida.

Os credores reagiram e enviaram uma carta de reclamação ao empresário. Monteiro voltou como consultor para uma rodada decisiva de negociações em Nova York.

O processo avançou e a equipe de Eike chegou a apresentar uma segunda oferta aos credores. Na quarta-feira, estava previsto que os investidores entregariam sua contraproposta.

Só que, na véspera, os credores foram surpreendidos pela demissão da equipe negociadora da OGX. Por telefone, Eike dispensou todos e deixou os credores sem interlocutor em Nova York.

Saíram Luiz Carneiro, presidente da OGX, José Faveret, diretor jurídico da empresa, e Monteiro. Parece inacreditável, mas é verdade: Monteiro foi demitido duas vezes.

K disse a Eike que a administração da OGX estava “fazendo o jogo” dos credores e convenceu o empresário de que é possível virar a partida.

Ele batalha agora para conseguir um aporte de recursos que mantenha a empresa operando, pagar as dívidas durante a recuperação judicial e, quem sabe, atrair um sócio estratégico no futuro.

O impressionante não é a disposição de K, que está cumprindo seu papel, mas o fato de que Eike ouve apenas o que quer.

A OGX tem quase US$ 5 bilhões de dívida, ativos que valem a metade desse valor e menos de US$ 100 milhões em caixa. É uma situação extremamente difícil, para dizer o mínimo.

Pinco, BlackRock e outros investidores desse porte sabem que perder ou ganhar dinheiro é parte do negócio, mas as idas e vindas de Eike não devem estar sendo bem recebidas.

E, sem dúvida, vão deixar esse pessoal ainda mais reticente a voltar a apostar seu dinheiro no Brasil.

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