Construção de navio polar em Rio Grande cria a expectativa de gerar 5 mil novos postos de trabalho

FONTE PETRONOTÍCIAS – Matéria publicada em 15 de julho de 2020

Por Davi de Souza

Uma chama de esperança está ardendo no setor de construção naval do Rio Grande do Sul. Conforme o Petronotícias publicou recentemente, a Ecovix e a chilena Asmar estão em negociações para construir um navio polar no estaleiro Rio Grande.

A notícia trouxe um fôlego de ânimo para os trabalhadores da indústria naval da região, que já viveu tempos de glória e prosperidade no passado, mas hoje ainda sofre os efeitos da crise desencadeada pelos desdobramentos da Operação Lava Jato. Para entender como está a expectativa em torno do projeto, conversamos com o vereador Benito Gonçalves, que está atualmente licenciado da presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de Rio Grande, por conta da proximidade das eleições municipais. Ele afirma que apesar de muitos terem deixado a cidade, Rio Grande ainda detém um grande contingente de mão de obra especializada à espera do renascimento do polo naval da região. “A cidade não esvaziou. O emprego foi embora, mas muitas pessoas ficaram aqui”, disse. O vereador destacou que as projeções da própria Ecovix são de que as obras do navio polar podem gerar até 5 mil empregos. “Isso tem deixado o povo muito eufórico. Estamos em uma expectativa muito grande para que essa empresa chilena possa fechar este contrato com a Ecovix”, concluiu.

Quais foram os impactos da crise na Petrobrás depois da Lava Jato, em 2015, na vida dos trabalhadores de Rio Grande?

Desde o dia 12 de dezembro de 2016, quando houve a demissão em massa no canteiro da Ecovix, bateu uma tristeza e uma crise econômica na região. A chegada das obras da Petrobrás trouxe muito progresso, elevando o nível da região. Tínhamos o anúncio [em 2010] da construção de oito cascos pela Ecovix naquela época. Isso fez com que as pessoas fizessem projeções de vida durante esse período. Seriam 20 anos de obras pela frente.

Tínhamos um estudo que indicava que para o Brasil chegar à excelência offshore, seriam necessários 10 anos. O ressurgimento da indústria naval brasileira começou em 2005 e acabou exatamente em 2016. Ou seja, quando já havíamos chegado ao nível de excelência, tomamos uma rasteira. A classe trabalhadora foi a única sem responsabilidade em tudo isso e, na realidade, foi a única que pagou o preço por tudo o que aconteceu desde a Operação Lava Jato. Quando os trabalhadores do Rio Grande chegaram ao nível de excelência, eles perderam seus trabalhos.

Tivemos trabalhadores aqui que venderam geladeira, televisão, moto e carro para fazer cursos de qualificação e trabalhar nessas obras. E hoje estão todos qualificadíssimos, mas sem trabalho. Vimos nossas plataformas serem cortadas e vendidas como sucata. Peças importadas, de milhões e milhões de dólares, sendo vendidas como lixo. Faltavam três ou quatro blocos para a P-71. Já P-72 estava praticamente completa, só faltava montar. E vimos tudo isso sumir.

E em termos econômicos, o que representou o fim desses projetos de plataformas para as finanças de Rio Grande?

 

Só a Ecovix deixou de transferir R$ 62 milhões de ISS [Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza] em um ano para os cofres públicos da Prefeitura. Em 2017, a Prefeitura ainda recebeu o que era relativo ao ano de 2016. Mas desde então, estamos há três anos com essa quebra no caixa. Deixaram de pagar porque eles não tinham obras. Esse dinheiro era usado pela cidade no posto de saúde, na segurança, nas estradas etc. Com a retomada das atividades no estaleiro Rio Grande, isso vai se traduzir em investimentos em segurança, saúde, obras, além da geração de empregos.

Quantas pessoas estão empregadas hoje no polo naval?

Com dois estaleiros trabalhando, três navios sendo construídos, tínhamos um pico de 24 mil trabalhadores em 2013. Hoje, esse número é de 1.500, no máximo.

Agora, surge um novo suspiro de esperança para o polo naval do Rio Grande, a partir da chance de construção de um navio polar na região. Qual tem sido a expectativa em torno dessa possibilidade?

 

A empresa fez um acordo e devolveu alguns milhões de dólares para a Petrobrás. Assim, ela ficou liberada para voltar a trabalhar. Eu conversei com a direção da Ecovix assim que recebemos a notícia, veiculada pelo Petronotícias, de que eles estavam negociando esse acordo para construção do navio polar. Eles me disseram que estão em uma negociação muito boa com a empresa chilena.

Trata-se de uma construção diferente. Não é uma plataforma de petróleo, é um navio polar. É uma embarcação complexa que pode gerar mais de 5 mil vagas de emprego da noite para o dia. Isso fez renascer esperança do povo. Todos estão muito eufóricos.

A estimativa da empresa, como eu disse, é de uma criação de 5 mil empregos diretos e indiretos. Mas, na minha opinião, contando fornecedores, mão de obra indireta, comércio, podemos falar que um navio desses atingirá 10 mil pessoas tranquilamente.

Muitas pessoas deixaram Rio Grande depois que a Petrobrás desistiu de construir as plataformas na cidade. A região ainda possui gente qualificada o suficiente para atender esta possível nova demanda para as obras do navio polar?

Aqui no Rio Grande do Sul não tem só o canteiro da Ecovix. Temos também o estaleiro QGI e, na cidade vizinha, São José do Norte, temos o estaleiro EBR. O EBR, aliás, fez quatro módulos para a Modec no ano passado. E agora, mais recentemente, pegaram mais quatro ou cinco módulos para fazer. Então, estão começando a contratar de novo.

Então, dos milhares de trabalhadores que vieram para cá no passado, aqueles que tinham poder econômico alto foram embora. Mas a maioria permaneceu aqui em Rio Grande, por ser uma cidade mais pacata e tranquila do que as grandes metrópoles. Com isso, a cidade não esvaziou. O emprego foi embora, mas muitas pessoas ficaram aqui.

Agora, vemos alguma movimentação no canteiro [do estaleiro Rio Grande]. A empresa já contratou pessoas para limpar o canteiro para se reorganizar para uma possível retomada. Isso tem deixado o povo muito eufórico. Estamos em uma expectativa muito grande para que essa empresa chilena possa fechar este contrato com a Ecovix. Eu, como vereador, atuando na parte política, tenho caminhado lado a lado para tentar facilitar tudo o que pudermos para abrir as portas para novos projetos nas cidades de Rio Grande e São José do Norte. Assim, poderemos recuperar aquilo que perdemos: a dignidade de termos de volta os postos de trabalho para os quais nos qualificamos.

 

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