Desordenamento nos preços do aço já está impactando a construção civil, além da cadeia de óleo e gás

FONTE PETRONOTÍCIAS – Matéria publicada em 24 de setembro de 2020

Os reflexos da desordem do mercado de aço no Brasil passaram da indústria de óleo e gás também estão se refletindo na construção civil, causando graves impactos na economia como a suspensão de obras e mais desemprego.

Empresas deixaram de receber o aço em vergalhões e em treliças. Os preços aumentaram e a promessa de entrega está entre 30 e 45 dias. Os lojistas informam que quando seus pedidos são entregues chegam pela metade, quando são cumpridos. Invariavelmente o preço dos produtos é um quando são encomendados e outro quando são entregues. Não há previsibilidade e nem explicações claras para os aumentos sucessivos. A Câmara da Indústria da Construção já se manifestou junto ao governo federal sobre este completo descontrole. A CBIC já entregou um documento formal com todas as denúncias sobre os descompassos e o desordenamento do mercado provocado pela explosão de preços do aço, cimento e de outros produtos usados na construção civil, mas ainda não recebeu qualquer posicionamento ou explicação.

Agora, quem entrou na lista de reclamações foram os tubos e conexões de PVC. Segundo informam os lojistas, chegaram com um aumento de 100%. A Tigre, maior indústria brasileira deste segmento, com várias fábricas pelo Brasil, aponta um aumento significativo no preço das resinas, majorados pela Braskem. Esta é a justificativa formal para os aumentos. A Braskem, no entanto, ainda não se manifestou sobre as razões que levaram a empresa a este aumento. A Tigre, se posicionou com uma nota informando que ”O Grupo Tigre confirma que reajustados seus principais insumos, tais como a resina de PVC. Os índices são variáveis, de acordo com tipo de suprimentos, volumes, prazos etc. A resina de PVC é uma commodity global, com preço cotado em dólar. Os preços de resina são portanto impactados pelo câmbio, que ano se desvalorizou em mais de 35%. Além disso, a queda abrupta de demanda num 1º momento, devido à pandemia  do Coronavírus, ocasionou uma importante desmobilização produtiva. O retorno rápido da demanda causou um forte impacto em toda cadeis de suprimentos, que está levando tempo para se adequar à realidade. A escassez da resina de PVC atingiu a industrias de materiais para a construção não só no Brasil como no mundo.”

O Sindicato da Indústria da Construção Pesada, segundo seu presidente, Alexandre Tostes (foto À direita), “Está acompanhando com atenção e preocupação os impactos no mercado da construção pesada. Temos buscado o diálogo com os setores e com as autoridades para encontrar soluções.”

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) entregou ao governo federal um documento que reúne evidências sobre abusos no aumento do preço de materiais de construção. O material, foi levado à Secretaria de Advocacia da Concorrência e Competitividade do Ministério da Economia, demonstra causas e consequências para os aumentos e para o desabastecimento, além de apresentar propostas para diminuir  os seus efeitos na economia nacional. A CSN, inclusive, está entregando um comunicado datado do dia 22 de setembro(terça-feira), assinado pelo Gerente Geral de Cimento, Alexandre Bondenave Boechat, informando um novo reajuste a partir do dia 1º de outubro, um dos muitos desde abril, e já prevendo outros aumentos ainda para este ano. No comunicado o gerente diz que “O reajuste busca minimizar os impactos significativos da elevação de custos do cimento, absorvidos pela companhia ao longo dos últimos meses. Este reajuste cobrirá parcialmente o impacto dos custos realizados, portanto a CSN prevê novos reajustes para 2020.”

Para o presidente da CBIC, José Carlos Martins (foto principal),  foi criado um desequilíbrio artificial por parte das empresas: “Com a insegurança inicial gerada pela pandemia, em março, foi gerado um falso desabastecimento, que foi sendo aproveitado pelos fornecedores para recuperar preços. Se não houver um choque de oferta urgente, a memória inflacionária irá criar um caminho sem volta para a nossa economia.” 

Para comprovar essa narrativa, a CBIC realizou o cruzamento de informações presentes em diversos documentos, cotações e declarações para acionistas por parte de grandes indústrias. São apresentados, por exemplo, dados que podem demonstrar interferência no mercado por parte de uma siderúrgica, além do posicionamento de uma entidade da indústria do cimento declarando que o setor possui 45% de capacidade ociosa e que está aproveitando para recuperar preços. O levantamento ainda traz correspondências enviadas por diferentes fabricantes de insumos comunicando aumentos idênticos nos preços dos mesmos produtos, simultaneamente, para a mesma região.

De acordo com a entidade, o cenário de aumento dos preços e desabastecimento terá uma série de consequências, como desemprego, aumento do custo das obras públicas. De acordo com o vice-presidente da área de Infraestrutura da CBIC, Carlos Eduardo Lima Jorge (foto a direita) para as construtoras de obras públicas, já com dificuldades de capital de giro, a busca pelo reequilíbrio dos contratos em função desses aumentos é um processo demorado. “A consequência imediata será a redução do ritmo das obras e o desemprego de funcionários.”

No documento entregue ao governo, a entidade fala das incertezas que marcaram o setor da construção civil, quando as indústrias reduziram seus efetivos e fecharam fábricas, reduzindo substancialmente a oferta de produtos. Em especial os setores de aço e cimento.

Na avaliação de Antonio de Sousa Ramalho (foto à esquerda), presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Industrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP), é fundamental que haja uma conscientização do governo para os riscos desses aumentos nos preços:  “Com as obras trabalhando a todo vapor e investidores acreditando que uma das saídas para a retomada do crescimento se dará pela construção, não podemos aceitar aumentos abusivos para os insumos do setor.”

Outra consequência dos aumentos apresentada ao governo é o risco de uma redução significativa no número de lançamentos de imóveis neste segundo semestre, o que significa menos empregos e aumento nos preços.

A grande preocupação, no momento, é que os incorporadores, em função desses aumentos inesperados, passem a duvidar da viabilidade dos empreendimentos a serem lançados”, explica Celso Petrucci, vice-presidente da área de Indústria Imobiliária da CBIC. Para ele, se isso acontecer, com a queda da oferta final dos últimos trimestres, o setor pode ter um aumento de preços não desejável.

 

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