Brasil tem crescimento recorde no 3º tri, mas serviços impedem recuperação de perdas da pandemia

FONTE REUTERS – Matéria publicada em 03 de dezembro de 2020

Foto: Fábrica de alumínio em Pindamonhangaba, SP 19/06/2015 REUTERS/Paulo Whitaker

By Camila Moreira, Rodrigo Viga Gaier

SÃO PAULO (Reuters) – A economia do Brasil registrou expansão recorde no terceiro trimestre de 2020, mas o movimento foi contido pelo setor de serviços e acabou sendo insuficiente para recuperar as perdas vistas no ápice da pandemia de coronavírus no país.

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 7,7% no período de julho a setembro na comparação com os três meses anteriores, de acordo com dados divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O desempenho foi o melhor desde o início da série, em 1996, e veio depois de contração de 1,5% no primeiro trimestre e de 9,6% no segundo, quando as medidas de contenção contra o coronavírus paralisaram a atividade de ponta a ponta no país.

O ritmo da economia passou a ganhar força no final do segundo trimestre, depois de ter atingido o fundo do poço em abril, conforme as empresas foram reabrindo após medidas mais rígidas de isolamento.

Entretanto, as consequências da pandemia ainda ficam claras quando se olha para o recuo de 3,9% do PIB no terceiro trimestre na comparação com o mesmo período de 2019. Além disso, a economia se encontra no mesmo patamar de 2017, com perda acumulada de 5% de janeiro a setembro em relação ao mesmo período de 2019.

“Ainda há perdas a recuperar pela frente. O terceiro trimestre contou com flexibilização (das medidas de isolamento), mas as pessoas ainda estão muito receosas e cautelosas com atividades presenciais. Novos recuos (das flexibilizações) podem ser obstáculos à retomada do PIB”, afirmou a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

Tanto os resultados na margem quanto na comparação anual vieram mais fracos do que as expectativas apuradas em pesquisa da Reuters –de crescimento de 9,0% na comparação trimestral e de recuo de 3,5% sobre um ano antes.

SERVIÇOS

No terceiro trimestre, o destaque do lado da produção ficou para o aumento de 14,8% na Indústria, notadamente a alta de 23,7% no setor de Transformação.

O setor de Serviços, que tem o maior peso na economia, também teve forte desempenho, com expansão de 6,3%. Entretanto, sendo o mais afetado pelo isolamento social e com as maiores dificuldades para retornar ao nível pré-pandemia, sua performance aquém foi decisiva para que a economia não conseguisse retornar ao nível pré-pandemia.

“Por causa dos serviços, o terceiro (trimestre) não repôs as perdas causadas pela pandemia no segundo. Mesmo com a flexibilização, tanto oferta quanto demanda não voltaram aos patamares pré-pandemia”, explicou Palis.

Por outro lado, a Agropecuária contabilizou retração de 0,5% no terceiro trimestre sobre os três meses anteriores, o que se deveu, segundo ao IBGE, a um ajuste de safra. O setor ainda apresenta crescimento no acumulado do ano, de 2,4%, contra quedas de 5,1% da Indústria e 5,3% dos Serviços.

“A agropecuária continua positiva e é a menos prejudicada pela pandemia. A queda de agro não quer dizer muita coisa, e a tendência é de crescimento”, afirmou Palis.

Do lado das despesas, o Consumo das Famílias teve aumento de 7,6% sobre o segundo trimestre, enquanto o Consumo do Governo subiu 3,5%.

Já a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), uma medida de investimento, cresceu no período 11,0%, num desempenho, entretanto, relacionado à base de comparação muito baixa, já que no segundo trimestre a queda foi de 16,5%.

“No acumulado do ano, a queda (da FBCF) é de 5,5%. E o país ainda tem investimento em equipamentos importados, e, como o dólar está alto, influencia para baixo”, completou Palis.

Em relação ao setor externo, as Exportações de Bens e Serviços tiveram queda de 2,1%, enquanto as Importações caíram 9,6% em relação ao segundo trimestre de 2020, em resultados também influenciados pelo câmbio.

AUXÍLIO

A retomada econômica foi impulsionada por medidas do governo, destacadamente o pagamento de benefício a informais vulneráveis.

Outros componentes para a melhora incluíram aumento do crédito, programa de proteção ao emprego e flexibilização monetária, com a taxa básica de juros (a Selic) reduzida à mínima histórica de 2% ao ano.

O Ministério da Economia avaliou nesta quinta-feira que o resultado do terceiro trimestre confirma a retomada em V da atividade, quadro que dispensa a necessidade de auxílios do governo para o próximo ano.[L1N2IJ0Y1]

Olhando para a frente, a perspectiva é de crescimento no ano que vem, com projeções que vão de 3% a 4% –expectativa, entretanto, que deve ser observada com cautela dada a fraca base de comparação.

O governo estima que o PIB irá contrair 4,5% neste ano, em dado revisado recentemente em função do bom resultado esperado para a atividade econômica no terceiro trimestre. Para 2021, foi mantida perspectiva de crescimento de 3,2%.

Além da pandemia do coronavírus, a situação fiscal do país também segue como um ponto de atenção e cautela, bem como a retirada do suporte do governo (na forma de auxílio emergencial) e o aumento da inflação.

“A hipótese básica para um crescimento moderado é de que não vai haver deslizes do lado fiscal. Até agora o cenário tem sido de ausência de sinais desse lado, tanto negativos quanto positivos, mas nossa percepção é que essa lição de que a responsabilidade fiscal traz custos políticos foi aprendida”, avaliou o economista do banco BV Carlos Lopes, que tem viés de baixa para sua estimativa de expansão do PIB de 4% em 2021.

 

Os comentários estão encerrados.

%d blogueiros gostam disto: