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Uruguai: houve ‘mal-entendido’ com Brasil

FONTE DEFESA NET – Matéria publicada em 18 de agosto de 2016

Montevidéu diz que proposta brasileira não tinha relação com Mercosul. Fontes relatam pedido de desculpas.

Gabriela Valente

Para tentar evitar uma deterioração das relações entre Brasil e Uruguai, o ministro do Exterior uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, teria telefonado ontem para o ministro das Relações Exteriores brasileiro, José Serra, a fim de pedir desculpas, “o que fez repetidas vezes”, segundo uma fonte do Itamaraty ouvida pelo GLOBO. Na terça-feira, o jornal uruguaio “El País” havia informado que o governo de Tabaré Vázquez ficara aborrecido com a tentativa do Brasil de “comprar” o voto uruguaio na polêmica sobre se a Venezuela deveria assumir a presidência do Mercosul.

Ontem, o governo Vázquez divulgou nota afirmando ter ocorrido um “mal-entendido em relação à proposta brasileira de efetuar atividades de promoção comercial conjuntas em terceiros mercados”, ressaltando ter ficado claro que ela não tinha qualquer relação com Venezuela e Mercosul.

Reservadamente, o chanceler brasileiro aceitou as desculpas. Em público, voltou a criticar a Venezuela. Brasil, Argentina e Paraguai querem evitar que o governo de Nicolás Maduro assuma a presidência pro tempore do Mercosul. Serra voltou a afirmar que a Venezuela não cumpriu as exigências para tanto. E ressaltou que, no país, há presos políticos, condição imprópria para uma democracia.

A nota da chancelaria uruguaia afirma ter havido um “mal-entendido em relação à proposta brasileira de efetuar atividades de promoção comercial conjuntas em terceiros mercados” e que ficou “perfeitamente claro que a mesma não tem qualquer relação com a consideração sobre a transferência da presidência pro tempore do Mercosul.”

O texto diz ainda que “o Uruguai entende que a prioridade essencial é conseguir evitar que qualquer impasse provoque uma paralisação nas atividades do bloco”. A chancelaria também defendeu o diálogo entre os Estados membros do Mercosul.

Maduro vê “aliança golpista”

Na versão taquigráfica obtida pelo “El País” da audiência de Nin Novoa no Congresso uruguaio, ficava claro que o chanceler estava profundamente irritado pelo que definiu como a “pretensão” do Brasil de que “fosse suspensa a transferência (da presidência do Mercosul) e, além disso, de nos levarem em suas negociações com outros países, como querendo comprar o voto do Uruguai”.

Maduro, por sua vez, usou ontem a reportagem do “El País” como argumento para reforçar sua decisão de assumir, unilateralmente e sem o consenso dos demais sócios, a presidência do bloco. — A Venezuela se declara em batalha para salvar o Mercosul da tríplice aliança golpista que formam Argentina, Brasil e Paraguai — afirmou Maduro, que agradeceu a “força moral” do Uruguai, único país que não se opõe à presidência venezuelana do bloco. — Aqui está a Venezuela, presidente em exercício e membro pleno do Mercosul e daqui não nos tira ninguém.

O presidente venezuelano considerou um escândalo que “o governo golpista do Brasil tenha tentado pressionar o Uruguai de maneira ilegal” para obter seu respaldo na disputa pela presidência do Mercosul. Já o chanceler do Paraguai, Eladio Loizaga, afirmou que “o Mercosul é propriedade dos quatro Estados fundadores” (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). — Temos situações de não cumprimento (de protocolos internos do bloco) por parte da Venezuela, e acho que essa linguagem (usada por Maduro) não contribui para a imagem externa do Mercosul — assegurou o chanceler paraguaio.

Em Brasília, Serra, depois de receber dois representantes da oposição venezuelana — o exilado Carlos Vecchio e Luis Florido, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Assembleia Nacional —, afirmou que o país tem um regime autoritário e está sem rumo neste momento. O chanceler brasileiro defendeu a urgência do referendo que pode confirmar ou não o governo no poder. E ressaltou que, se isso não for feito logo, Maduro poderia fazer uma manobra para colocar seu vice no poder.

— Todos os países democráticos do mundo devem pressionar a Venezuela a fazer o referendo — afirmou Serra. — A Venezuela entrou no Mercosul num golpe. A Venezuela não tem condições de assumir o Mercosul.

Promessa de Apoio

O chanceler brasileiro lembrou que o Mercosul suspendeu o Paraguai por causa de um processo constitucional de impeachment com o apoio de Brasil, Argentina e Uruguai, todos com governos de esquerda à época. Com isso, o único oponente à entrada da Venezuela no bloco não participou da decisão. — Desfeito o governo autoritário, a Venezuela pode contar com o Brasil para ser reconstruída. Falo em nome do governo brasileiro — prometeu o ministro, que lamentou o fato de Maduro não aceitar remédios oferecidos pelo Brasil.

 

 

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