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Percepções por vezes enganosas

FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO

Um tema que sempre nos desafia é descobrir para onde caminha a humanidade, avaliar as principais tendências e tentar projetar o futuro. Mas isso não é tarefa fácil nem tampouco segura, até porque a análise pode embutir premissas nem sempre óbvias e por vezes enganosas.

Para começar, pensemos na presença do homem na terra nos últimos 12 mil anos. De 10 mil a.C. até o ano 1800 da era cristã, a expectativa de vida no nosso planeta ficou estável e próxima a apenas 25 anos de idade.

Esse fator foi certamente o maior limitador não só do crescimento da população como de geração de riqueza. Nos últimos 200 anos, esse tempo médio de vida subiu gradualmente para 65 anos graças à urbanização e aos avanços da medicina, permitindo que a população mundial saísse de 1 bilhão para os cerca de 7 bilhões de habitantes de hoje.

Uma rápida extrapolação dessa tendência recente poderia nos levar a acreditar que o planeta chegaria rapidamente a uma superpopulação, mas não é bem isso o que deverá acontecer.

A taxa de crescimento populacional tem sido reduzida significativamente nas últimas décadas, em maior escala nos países desenvolvidos, em boa parte devido ao avanço do planejamento familiar, que passou a ocupar o lugar da pura e simples vontade de Deus.

Assim, a população mundial deverá continuar a crescer e atingir 9,5 bilhões de habitantes em meados deste século, mas não deverá ultrapassar a marca dos 10 bilhões até o final dele.

O que também será observado é um aumento do percentual de pessoas idosas no perfil da população.

Esse tipo de análise alimenta também o questionamento em relação a até quando será possível a manutenção das espantosas taxas de crescimento observadas na China.

Por um lado, vemos alguns indicadores que demonstram existir um mercado interno com potencial fantástico. Hoje, apenas 1% da população do país controla 70% da riqueza. Enquanto para cada grupo de 1.000 habitantes existem 961 automóveis nos Estados Unidos e 606 na Europa, na China esse número é de apenas 41.

Mas a população chinesa é uma das que em média mais rapidamente envelhecem no mundo, cerca de três vezes mais rápido do que a dos Estados Unidos. E isso pode fazer com que em poucas décadas a percentagem de pessoas que compõem a população economicamente ativa seja significativamente reduzida, tendo ela ainda que arcar com o peso de sustentar a
população mais velha.

Não menos complexas são as análises voltadas a recursos estratégicos como energia. Mas a maior distribuição da riqueza no mundo, gerada pelo facilitado acesso a capital, pela universalização dos meios de produção e pela enorme e silenciosa revolução provocada pela tecnologia da informação, vem reduzindo o desequilíbrio existente entre o padrão de consumo dos países ricos e pobres, criando pressões nos preços das commodities.

Estima-se que a demanda global de energia venha a crescer aproximadamente 50% nos próximos 25 anos, de algo como 500 quatrilhões de BTUs (British Thermal Unit) para cerca de 750 quatrilhões.

Apesar de todas as iniciativas voltadas para o incentivo à adoção de projetos de energia renovável, a sua participação percentual no mix global ainda deverá ficar abaixo dos 15%, enquanto os combustíveis fósseis como o petróleo, o carvão e o gás natural permanecerão fornecendo mais de 75% das necessidades de energia mundial.

E as oportunidades para a produção de petróleo estão cada vez mais complexas.

O mundo deverá ver o consumo de petróleo aumentar de 86 milhões de barris por dia para 108 milhões nos próximos 20 anos e projetos convencionais de extração deverão responder por menos da metade desse crescimento.

A produção em águas profundas, a extração de óleos ultrapesados e os projetos de “shale oil”, todos com elevados custos de implantação e operação, serão os maiores responsáveis pelo aumento da oferta.

A realidade é que o uso de petróleo no mundo está longe de ser reduzido e a probabilidade de termos no futuro baixos preços desse produto de forma sustentável é quase inexistente.

Rodolfo Landim, 55, engenheiro civil e de petróleo, é presidente da Ouro Preto Óleo e Gás e sócio-diretor da Mare Investimentos. Trabalhou na Petrobras, onde, entre outras funções, foi diretor-gerente de exploração e produção e presidente da Petrobras Distribuidora. Escreve, às sextas-feiras, a cada duas semanas, em ‘Mercado’

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