O Brasil está pronto para lidar com a exploração do pré-sal?

Mercadante anuncia linha de financiamento para aumentar segurança na exploração do pré-sal
29/11/2011
China, Brasil e Portugal são os principais credores da dívida pública angolana * O país deve US$ 5,6 mil milhões (bilhões) de dólares à China, US$ 1,8 mil milhões (bilhões) ao Brasil, US$ 1,4 mil milhões (bilhões) a Portugal.
29/11/2011

O Brasil está pronto para lidar com a exploração do pré-sal?

 

O acidente da Chevron não tem a gravidade do acidente no golfo do México, em 2010, que lançou 5 milhões de barris de petróleo no mar e destruiu a plataforma de perfuração (a um custo de US$ 1 bilhão), causando 11 mortes e 17 feridos. O custo da recuperação das áreas litorâneas degradadas, a compensação pelos prejuízos causados à indústria da pesca e os dispêndios no fechamento do poço são estimados em cerca de US$ 20 bilhões.

 

Há, porém, várias similaridades entre os dois acidentes: a Chevron, como a British Petroleum (BP) no caso do golfo do México, demorou a dar explicações claras e transparentes e aparentemente ocultou informações, como fizera a BP. A Agência Nacional de Petróleo (ANP), contudo, deu sinais de vitalidade – o que não é usual – e multou a empresa em R$ 50 milhões, com insinuações de suspender suas atividades no Brasil, esquecendo talvez que a Petrobras é associada à Chevron nessa área. Por sua vez, o Ibama – só após o acidente – deu-se conta de que deixou de fazer importantes exigências por ocasião do licenciamento.

 

O problema, na realidade, é mais profundo: as empresas que operam no setor petrolífero no Brasil, incluindo a Petrobras, não têm uma cultura empresarial que priorize a proteção ambiental, vista, em geral, como um estorvo às atividades de perfuração e produção. Essa conduta é um aspecto do problema geral de escolher entre desenvolvimento e preservação ambiental, um fantasma que persegue o atual governo, que não consegue perceber que é possível conciliar as duas opções.

 

Exemplo desses problemas é a euforia com a exploração do pré-sal, que inclusive já levou à aprovação de leis para dividir os royalties de petróleo que eventualmente só será produzido daqui a cinco ou dez anos. Até chegarmos lá, porém, há um longo caminho a percorrer.

 

O que aconteceu com o poço da Chevron é apenas um aviso, que talvez seja bem-vindo, porque acordará as autoridades para a necessidade de mais transparência na exploração do pré-sal. Não é preciso entrar em depressão, mas reduzir a euforia em relação ao pré-sal, que lembra os tempos do “Brasil Grande”.

 

Tem sido argumentado, por exemplo, que os poços de pré-sal estão a cerca de 300 quilômetros da costa e que, se houver derramamento de petróleo, ele se dispersará antes de atingir a costa – o que não significa que a vida marinha deverá deixar de ser seriamente afetada.

 

Outro argumento usado por técnicos da Petrobras é o de que a “melhor tecnologia disponível” está sendo usada na exploração, o que pode até ser verdade. Contudo não existe experiência para retirar petróleo de reservatório situado abaixo da camada de sal de mais de três quilômetros, o que não foi feito ainda em outros países.

 

Estamos realmente entrando numa área nova, em que problemas inesperados podem ocorrer. Podemos liderar essa área ou comprometer seriamente seu futuro.

 

José Goldemberg, doutor em ciências físicas pela USP, é professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da mesma universidade. Foi reitor da USP (1986-89), secretário da Ciência e Tecnologia da Presidência da República e ministro da Educação (governo Collor) e secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo (2002-2006).

 

SIM – Desafio necessário e possível

Resposta de Edmar de Almeida.

 

Os recentes acidentes com derramamento de petróleo no golfo do México e agora na bacia de Campos colocam em tela dois tipos de questionamentos à exploração do pré-sal brasileiro: não estaria o Brasil entrando numa aventura desnecessária, com a iminência da substituição do petróleo por fontes de energia renováveis? Estaria o Brasil preparado para enfrentar os desafios econômicos, tecnológicos e ambientais do pré-sal?

 

O primeiro questionamento está ligado à ideia de que o petróleo é uma energia do passado e que não vale a pena mobilizar recursos da sociedade em um negócio fadado a encolher e desaparecer rapidamente. Tal ideia não tem sustentação na realidade dos fatos.

Os estudos de previsão da matriz energética mundial apontam para um papel do petróleo e do gás natural ainda dominante no horizonte de longo prazo. Segundo a Agência Internacional de Energia, essas fontes deverão representar 75% da matriz energética mundial em 2035, no cenário mais otimista para as energias renováveis.

 

Esse tipo de previsão é confirmado por outras agências governamentais e pelas principais empresas energéticas mundiais. Podemos dizer que o petróleo e o gás conservarão um papel destacado na longa transição para uma economia descarbonizada. Nesse sentido, o pré-sal constitui uma expressiva vantagem comparativa para o Brasil. Nosso país poderá assumir papel de destaque na transição energética, não só devido à sua grande dotação de petróleo e gás, mas também em função do seu potencial significativo de recursos renováveis.

 

Com relação ao segundo questionamento, é importante ressaltar que o Brasil é um grande caso de sucesso na exploração “offshore” em águas profundas. A partir dos anos 1980, o País fez um enorme esforço econômico e tecnológico no campo da exploração “offshore” na busca da autossuficiência em petróleo. Como resultado desse esforço, a Petrobras tornou-se empresa líder nessa tecnologia e hoje é a maior operadora mundial na produção de petróleo em águas profundas.

 

O País vem, até o momento, equacionando com sucesso outro grande desafio: o financiamento do expressivo volume de investimentos necessários para o aproveitamento do petróleo do pré-sal. Grande parte dos recursos para financiar tais investimentos vem do próprio fluxo de caixa da Petrobras. Em 2010, os lucros e os investimentos da empresa atingiram R$ 35,2 bilhões e R$76,4 bilhões, respectivamente. Isso significa que o sistema Petrobras investiu o equivalente a R$ 210 milhões de reais por dia.

 

Esse esforço está, em grande medida, associado à política de alinhar os preços dos combustíveis no Brasil aos do mercado internacional. Tal estratégia garantiu uma forte elevação dos ganhos da Petrobras em função do crescimento do preço do barril do petróleo. A política de preços adotada gerou confiança para que grandes “players” da indústria mundial do petróleo, assim como novas empresas brasileiras, apostassem no futuro do petróleo e do gás no País.

 

Por fim, vale dizer que o desenvolvimento do pré-sal não representa necessariamente um obstáculo para as energias renováveis. Pelo contrário, o Brasil tem a oportunidade de se apoiar nos benefícios econômicos do pré-sal para desempenhar um papel-chave nas energias do futuro. Esse é um desafio ambicioso, que deve ser enfrentado no âmbito de uma estratégia de longo prazo.

 

Edmar de Almeida, professor e diretor de pesquisas do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é vice-presidente da International Association for Energy Economics (Associação Internacional de Economia da Energia) e presidente da Associação Brasileira de Estudos em Energia.

 

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