Notáveis do Japão propõem no BNDES inovações para o pré-sal e muito mais, alheios ao curto prazo

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Notáveis do Japão propõem no BNDES inovações para o pré-sal e muito mais, alheios ao curto prazo

FONTE: CIDADE BIZ
O que se destaca é a postura dos líderes japoneses nestes tempos de desconfiança e resultados medíocres: abstraem o curto prazo, olham longe e pensam grande
Antonio Machado

Parece inimaginável, com o dólar chegando à cercania de R$ 2,45 e a variação mensal da inflação voltando a alçar voo, saindo de quase zero em julho para 0,16% no meio de agosto, além de a abertura de postos de trabalho despencar de 142,5 mil para 41,5 mil, de um mês para outro, que haja clima para falar de oportunidades de negócios.
Mas foi o que aconteceu na terça-feira na sede do BNDES, no Rio. E oportunidades não faltaram, apesar da bruma que embaça o horizonte da economia, já que assim foi por oito horas seguidas – da manhã ao fim de tarde. E não se tratava de executivos do BNDES esforçando-se em atrair investidores para as concessões de infraestrutura.
Foi o contrário: um grupo dos mais poderosos empresários do Japão, conhecido por Grupo de Sábios, veio de Tóquio apresentar propostas inovadoras, visionárias até, para atuação conjunta com a Petrobras na exploração do pré-sal, entre outras. Uma nova concepção para o desenvolvimento da malha ferroviária nacional, por exemplo, também entrou nas conversas, conduzidas pelo presidente do BNDES, Luciano Coutinho, hoje, principal referência japonesa na relação bilateral.
Os empresários tiveram audiência com a presidente Dilma Rousseff, e se mostraram resolutos quanto ao interesse renovado no Brasil. O Japão e empresas japonesas foram grandes investidores no país, até meados da década de 1980, financiando de Itaipu ao desenvolvimento agrícola no cerrado. Depois, com duas décadas de inflação endêmica e crises cambiais, se afastaram, embora alguns grupos fincassem pé, como a trading Mitsui, sócia da Vale, e Nippon Steel, da Usiminas.
Parte da retração do capitalismo japonês talvez se deva a décadas de estagnação econômica do Japão. Mas, a ser assim, o investimento japonês deveria ter se retraído na Ásia, sobretudo na China, e nos EUA, e isso nunca aconteceu. Algo estranho, até por estar no Brasil a maior colônia japonesa no mundo, já na terceira geração.
Comparado à presença maciça de multinacionais dos EUA e ascendente da China, o Japão S/A no Brasil é um anão. A Toyota, que está para o Japão como a Coca-Cola para os EUA, é só a sexta ou sétima maior montadora no Brasil em vendas. Empresas da vizinha Coreia do Sul, economia pujante, mas muito menor, têm sido mais ativas.
Parceria geoestratégica
O alheamento japonês pode começar a mudar. Mas bem de acordo com o ritmo oriental: datam de 2004, no governo Lula, as primeiras ações para o resgate da parceria estratégica com o Japão. Coutinho viajou a Tóquio duas vezes ao ano, desde 2007, aproximando o BNDES do JBIC (Japan Bank for International Cooperation), veículo do investimento privado e institucional japonês. Dois movimentos podem ter servido para se passar das discussões para o exame concreto de negócios.
A seleta de concessões de ativos de logística, além do megabloco de Libra, no pré-sal, é a oportunidade imediata. O desastre nuclear de Fukushima, conflitos com a China e o envelhecimento da população orientam o sentido geoestratégico da reaproximação com o Brasil.
Visão para pensar grande
Ainda que em passant, os empresários indagaram sobre os protestos de junho e os movimentos recentes do câmbio e inflação. Falaram de impostos, não para criticar o tamanho da carga tributária, mas para estranhar a enorme complexidade e burocracia. Assinamos embaixo.
A questão a destacar é que os integrantes do Grupo de Notáveis (ou Sábios) do Comitê de Cooperação Japão-Brasil – formado entre outros pela Mitsui, Nippon, Toyota, Ishikawagima (sócio de tecnologia do Estaleiro Atlântico Sul), Panasonic -, vieram com uma postura pouco comum nestes tempos de desconfiança com a economia e de resultados medíocres: abstrair o curto prazo, olhar longe e pensar grande.
E o que eles veem? Progresso, se não tropeçarmos nas próprias pernas.
Logística radicalizada
A visão japonesa do pré-sal, por exemplo, parece futurista, mas é a radicalização da logística de acesso às plataformas a mais de 300 quilômetros mar adentro, muito além da autonomia dos helicópteros.
A proposta, acompanhada de projeto, financiamento e investimento: navios como plataformas flutuantes, servindo de heliporto, tancagem e alojamento remoto. Lanchas rápidas, navegando a 45 nós (83 km) e com capacidade para 300 passageiros, ligariam as plataformas. Os custos, segundo essa ideia, baixariam, e a segurança aumentaria.
É o caminho: planejar e executar. Não se pode é ficar pensando na morte da bezerra, algemando as decisões devido às eleições de 2014, a crendices ideológicas, a barganhas dos partidos. E, agora, também à indecisão do Federal Reserve sobre quando o laxismo monetário vai refluir. O Fed pensa, enquanto as moedas mundo afora desmoronam.
Economia do “de grátis”
Os projetos trazidos pelos japoneses, como as próprias concessões, podem dar um tranco na malemolência da política, voltada, cada vez mais, para seus interesses paroquiais, trocando apoios no Congresso com outras demandas, sobretudo corporativas, e, de tempos para cá, várias sem propósito social relevante que não desfalcar o erário.
É o caso do estatuto que ampliou o conceito de juventude a adultos com até 29 anos. Ou da proposta terminativa do Senado para tornar dependentes do Imposto de Renda filhos, enteados e outros com até 28 anos, ou 32, se cursar faculdade ou escola técnica. Ampliam-se gastos obrigatórios do orçamento fiscal, assim como as isenções e subsídios que abatem o imposto a pagar. Essa conta não fecha.
De trabalho e do que há a fazer para aumentar as oportunidades de emprego, como os notáveis japoneses vieram propor, não se fala. O que os economistas têm chamado de economia da meia-entrada ou bolsa-tudo não pode dar certo.

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