Exposição revela funcionamento de campo de concentração nos EUA

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Exposição revela funcionamento de campo de concentração nos EUA

Foto: NYT

Crianças engraxam sapato no Centro de Aprendizado Interpretativo Heart Mountain, campo de concentração japonês, em foto sem data

Imagine que você é James Osamu Ito, filho de um imigrante japonês, formado em Ciências do Solo pela Universidade da Califórnia, Davis, e é proprietário de uma fazenda de mais ou menos 11 hectares no Estado. Em 1942, ele foi informado pelos militares americanos de que deveria abandonar suas terras, suas máquinas e sua casa e embarcar em um trem que iria levá-lo para um local no qual deveria aguardar o final da guerra que sua nação estava lutando contra a terra de seus ancestrais.

Em 1943, 10 mil pessoas viviam no , e cerca de um terço deles faziam parte da primeira geração de imigrantes japoneses conhecidos como issei (que não eram cidadãos americanos). O restante era nissei, a segunda geração, formada por nipo-americanos.

Durante um certo tempo, Heart Mountain foi a terceira maior cidade de Wyoming. E junto com outros nove “campos de internação” – todos localizados em regiões isoladas onde não poderia haver tráfico de informações ou contrabando – este era um dos lugares para onde as pessoas de origem japonesa eram enviadas em 1942, após o bombardeio de Pearl Harbor, pela Ordem Executiva 9066.

Tratou-se da realocação de mais de 110 mil pessoas, a maioria cidadãs legais dos Estados Unidos. Não houve uma análise seletiva. Mesmo agora, depois de um pedido oficial de desculpas às vítimas pelo governo dos Estados Unidos, além do pagamento de US$ 1,65 bilhão em indenizações e depois de histórias e memórias o suficiente terem sido escritas para encher uma estante de livros, o episódio continua sendo chocante e desconcertante. Como foi que isso aconteceu e por quê?

Até agora, um dos campos de internação, o Manzanar, localizado na Califórnia, chamou mais atenção do público em geral e tem até uma exposição em sua sede. Mas o museu em Heart Mountain (estranhamente chamado de um Centro de Aprendizado Interpretativo) é bem visto. A escassez da paisagem e seu relativo isolamento das atrações concorrentes – o local fica a meia hora de Cody e a 120 quilômetros do Parque Nacional de Yellowstone – captam a atenção.

Foram 15 anos de arrecadação de recursos pela Fundação Heart Mountain Wyoming, além da aquisição de 30 hectares (juntamente com os outros 40 que já eram propriedade do governo federal) antes deste centro de 11 mil metros quadrados poder ser construído.

Apenas um dos edifícios do antigo campo permanece em pé, uma estrutura modular que fez parte de seu antigo hospital. Fora isso, nem mesmo um quartel original pode ser visto por aqui, embora um tenha sido reproduzido no Museu Nacional Japonês Americano, em Los Angeles. Assim, o impacto deve vir da própria exposição, que foi idealizada pela Split Rock Studios, de Minnesota. Ela se concentra em homenagear aqueles cujas vidas viraram de cabeça para baixo e procura explicar como o remanejamento aconteceu. Além de buscar algum sentido para o estabelecimento, ela sugere aprendizados para o futuro.

O museu não é uniformemente bem sucedido em suas ambições, mas seu impacto ainda é considerável. Arrancados de seu cotidiano comum, demovidos de muitos de seus direitos constitucionais e colocados em um ambiente difícil, os habitantes do Heart Mountain acabaram criando um universo alternativo. A terra foi explorada, sapatos consertados, um jornal impresso e times esportivos formados. Notavelmente, os moradores também se alistaram ou até mesmo foram recrutados para as Forças Armadas. Alguns moradores foram até presos depois de resistir ao recrutamento para o Exército, e um desses casos chegou a ser examinado em um livro do jurista Eric L. Muller, diretor do comitê de programação do museu.

Primeiramente, esse é um museu que se baseia nas memórias dos sobreviventes. Em histórias que narram o ato de serem forçados a deixar suas casas, contam também de ter que comer longe de seus pais no refeitório, ou até mesmo descrevem a humilhação de ter que utilizar banheiros sem divisórias. (Os banheiros do museu simulam a experiência através da divisão dos cubículos com espelhos.)

Foto: NYT

Exposição mostra funcionamento do campo de concentração japonês nos EUA

Aprendemos que a cultura japonesa ensina paciência e disciplina. Neste museu, a história é contada em primeira pessoa. Trata-se de “nós”. Essa é uma narrativa comum sobre injustiças compartilhadas e triunfos coletivos.

Mas esse é também um dos pontos fracos do museu. “Nós” e “nossa” também criam barreiras. A experiência torna-se central. Como então devemos interpretá-la? Qual é o seu contexto?

Um problema é que o campo de internação não se categoriza facilmente. Heart Mountain certamente parecia uma prisão. No entanto, nós ficamos sabendo dos editores de seus jornais que trabalhavam em Cody assim como outros que trabalhavam fora do acampamento. Com qual frequencia isso acontecia?

A internação realmente tinha brechas bastante grandes. Nos dez acampamentos, mais de 4 mil estudantes deixavam o local para ir para a faculdade. Além disso, se uma família encontrou um lugar para viver em outra parte do país fora da costa oeste ou outras áreas importantes militarmente, eles eram livres para mudar-se; 30 mil habitantes o fizeram. Pelo menos uma empresa de Nova Jersey recrutava funcionários dos acampamentos. Essas misturas peculiares das liberdades e restrições davam ao acampamento um significado surreal.

Uma comissão do Congresso que analisou os acampamentos na década de 1980 veio com uma explicação, que se tornou padrão hoje em dia, que os acampamentos nada mais foram do que resultados de histeria de guerra e racismo. Por exemplo, na exposição aprendemos sobre a afirmação que Franklin D. Roosevelt fez em 1925 dizendo que a mistura de americanos com o “sangue asiático” traria “resultados infelizes”. Também havia inveja do sucesso econômico dos nipo-americanos nos Estados Unidos.

Mas a internação em tempo de guerra era mais regra do que exceção. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) muitos países europeus prendiam cidadãos de nações opostas, assim como os Estados Unidos também prenderam “inimigos estrangeiros”, incluindo alemães que não eram cidadãos americanos.

Durante a Segunda Guerra Mundial nipo-canadenses foram colocados em acampamentos. Na Grã-Bretanha, judeus refugiados da Alemanha nazista foram presos como inimigos estrangeiros na Ilha de Man. O que tornou a situação dos japoneses nos Estados Unidos mais complicada é que o Issei era proibido de se naturalizar e, portanto, classificado como inimigo estrangeiro cuja internação era legal – seus filhos americanos, os nissei, eram cidadãos. Mas, certamente, outros exemplos de internação de guerra nos ajudariam a entender por que a Ordem Executiva 9066 foi tão defendida.

Ajudaria também ter uma compreensão mais clara da população nipo-americana pré-guerra, que agora é retratada de forma homogênea como assimilacionista. Mas sabemos que o Japão nos anos 1930 era uma sociedade racista, militante e convencida da divindade do imperador, e que um número considerável de nisseis foram enviados para lá para estudar.

“A lealdade ao imperador”, nós aprendemos no Museu Nacional Americano Japonês, era um valor estimado para os issei. Mesmo o uso de termos como Issei e Nissei mostra a atenção às conexões japonesas. Além disso, os relatórios militares dos Estados Unidos e do FBI descrevem um número de organizações nipo-americanas na Costa Oeste, que eram financeiramente e ideologicamente dedicadas à pátria-mãe e a suas políticas.

Tudo isso teria ampliado as suspeitas. Além disso, o governo havia decodificado mensagens de agentes japoneses referindo-se a seus planos e sucessos. No dia 9 de maio de 1941, um comunicado deles feito de Los Angeles dizia: “Já estabelecemos contatos com japoneses absolutamente confiáveis na área de San Pedro e San Diego.”

Dois dias depois, um comunicado de Seattle, dizia: “Estamos conseguindo informações sobre a concentração de navios de guerra dentro do Pátio Naval de Bremerton”. Residentes japoneses da área foram deslocados de lá em 1942.

Além disso, os japoneses eram conhecidos por espionagem semelhantes noutros locais, incluindo as Filipinas. Um exemplo de traição pelo auxílio de moradores descendentes de japoneses também ocorreu pouco depois de Pearl Harbor, em que um casal em uma remota ilha havaiana tentou ajudar na fuga de um piloto abatido japonês. A ameaça era palpável: Um submarino japonês afundou um dos navios dos Estados Unidos e tomaram conta de um campo petrolifero na Califórnia.

Não estou sugerindo que tais fatores justificaram a deslocalizações.Quase todos os internados eram certamente inocentes, e mereciam seus direitos como cidadãos. A política foi racialmente influenciada e histérica em sua varredura. Mas, pelo menos, o contexto demonstra que a transferência foi uma resposta – uma reação radical – para um problema.Havia uma lógica geográfica, e não apenas racial. Nesse contexto, a exposição também ajuda a explicar as ambiguidades peculiares dos campos de internamento como a ansiedade, crueldade e flexibilidade.

Foto: NYT

Homem dentro de um barraco no Centro de Aprendizado Interpretativo Heart Mountain, um campo de concentração japonês

Ele também deve influenciar nas conclusões contemporâneas. “Será que uma injustiça como Heart Mountain pode acontecer novamente?” O museu questiona. “É muito fácil em tempos de crise e de guerra procurar um ‘forasteiro’ como bode expiatório.” Em seguida, sugere que é por isso que os grupos nipo-americanos falaram em nome dos muçulmanos americanos, após o 11 de Setembro. Mas essas ligações certamente merecem uma análise mais detalhada.

O que está além de qualquer questionamento é que qualquer que seja o contexto, nada pode diminuir as consequências trágicas da política – a violação de princípios, a perda de propriedade, a incapacidade dos refugiados de retomarem suas vidas antigas, os suicídios, o ódio, as possibilidades perdidas – e todos estes fatores são fortemente comemorados aqui. PORTAL FATOR BRASIL

Por Edward Rothstein

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