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Exportação de gás natural gera polêmica nos EUA

FONTE: IG

Segundo o chefe-executivo da Dow Química, o aumento do envio internacional do recurso representaria uma ameaça ao renascimento da indústria manufatureira

Depois de assumir o cargo de chefe-executivo da Dow Química, Andrew Liveris se tornou uma espécie de pária entre os líderes executivos.

Por quê? Ele está comandando uma campanha pública contra o aumento das exportações de gás natural dos Estados Unidos, que, segundo ele, seriam uma ameaça ao renascimento da indústria manufatureira americana, bem como aos objetivos comerciais de sua própria empresa. Porém, outros dizem que isso traria muito mais benefícios que problemas ao país: tudo como parte da transformação que promete aumentar o peso dos Estados Unidos na economia global.

O debate acabou se tornando pessoal. Nas palavras de Charif Souki, executivo da indústria energética que promove uma nova instalação para a importação de gás natural, Liveris é “hipócrita” e “só se preocupa com os próprios interesses”.

Agora, um dos poucos setores que pareciam apoiar Liveris – o governo americano – também pode se voltar contra ele. Em agosto, o Departamento de Energia aprovou mais um projeto para a exportação de gás natural, a segunda proposta a ser aceita desde maio.

A batalha em torno das exportações de gás natural reflete a transformação profunda do cenário econômico dos Estados Unidos causada pela descoberta de novas fontes de energia, muitas das quais na forma de petróleo e gás natural retirado por meio de métodos pouco convencionais, como escavações horizontais combinadas com o fraturamento hidráulico.

De fato, até mesmo enquanto ambientalistas e defensores do setor debatem os méritos e os riscos do fraturamento hidráulico, suas consequências se tornam cada vez mais óbvias. O governo dos Estados Unidos relatou recentemente uma melhora drástica na balança comercial de junho, em grande parte por conta da baixa na importação de petróleo.

Até 2020, novas fontes de gás natural e petróleo podem aumentar a produção econômica americana de 2 a 4% além do esperado, criando 1,7 milhão de empregos e possivelmente zerando a conta das importações energéticas, de acordo com um relatório feito pelo McKinsey Global Institute.

“Essa é uma reviravolta gigantesca”, afirmou Daniel Yergin, especialista em energia experiente e autor do livro recém-publicado “The Quest: Energy, Security and the Remaking of the Modern World” (A busca: energia, segurança e a recriação do mundo moderno, em tradução livre). “Isso está melhorando drasticamente a posição comercial dos Estados Unidos na economia global.”

No caso do gás não convencional de folhelho (shale gas), Magda disse que, apesar de não haver confirmação do tamanho das reservas, o potencial é grande e a fonte precisa ser explorada. “Não é possível deixar o não convencional de lado.”

A ANP calcula, num exercício hipotético, que o potencial de gás não convencional em cinco bacias geológicas brasileiras poderia passar de 500 trilhões de pés cúbicos (TCFs), o que seria mais do que o pré-sal brasileiro. “É apenas um exercício, uma provocação”, esclareceu Magda.

O cálculo é feito com base no tamanho das bacias, usando como referência a produtividade da área de shale Barnett, uma região de shale gas de referência nos Estados Unidos.

Magda disse que, provavelmente, as bacias brasileiras não alcançarão a mesma produtividade. Porém, se obtivessem, a Bacia do Parnaíba teria 64 TCFs, Parecis 124 TCFs, Recôncavo 20 TCFs, São Francisco 80 TCFs e Paraná 226 TCFs.

A ANP destaca que a estimativa do Paraná foi feita por uma agência americana e não é endossada pelo regulador brasileiro por falta de estudos.

A diretora-geral disse que o Ibama participará do licenciamento de poços para gás não convencional e estabelecerá requisitos específicos para este fim.

Ela lembra que há Estados com larga experiência com licenciamentos, como a Bahia, e outros que estão sendo apresentados agora ao setor de óleo e gás, como Mato Grosso. “O Ibama vai ser um ator chave no licenciamento não convencional.”

Entretanto, esse presente caído dos céus corre riscos, caso o governo dos Estados Unidos permita que as exportações cresçam rapidamente, alerta Liveris.

“Os Estados Unidos receberam um empurrão e tanto!”, afirmou recentemente durante uma entrevista em seu escritório.

Para aproveitar a boa sorte dos Estados Unidos, segundo ele, o governo precisa planejar uma política energética que equilibre com cuidado os interesses das empresas de petróleo e gás natural, que desejam exportar livremente o gás natural, com os de indústrias como a Dow Química Co., que temem que o boom de exportações possa superar o suprimento de gás no mercado doméstico, aumentando o preço da energia no país.

Australiano de nascimento e cidadania, Liveris surgiu como o principal oponente da exportação desmedida do gás natural. Ele criou uma organização lobista para promover a causa e criticou com intensidade o relatório publicado pelo Departamento de Energia em dezembro do ano passado, que dizia que o gás liquefeito poderia produzir 30 bilhões de dólares em lucros com as exportações, sem aumentar o custo do gás de forma sensível para os consumidores.

“Por que devemos apostar?”, questionou. “Acredito que não deveríamos apostar com a política energética. Quer dizer, não corremos esse tipo de risco com a política alimentar, nem com a defesa nacional.”

Depois de chegar ao auge na década passada, os preços do gás natural nos Estados Unidos estavam em torno de três a quatro dólares por milhão de unidades termais britânicas, ou BTUs, este ano. Antes da recessão essa valor

Chegava a 12 dólares por milhão de BTUs e é significativamente inferior aos preços cobrados na Ásia e na Europa.

Essa diferença de preços é uma das razões pelas quais a exportação se torna tão interessante para as empresas americanas, dispostas a gastar bilhões de dólares para construir instalações de exportação para enviar gás natural liquefeito em navios-tanque, na esperança de comercializá-lo no exterior.

Por outro lado, os preços baixos no mercado interno significam que a Dow – uma das maiores consumidoras privadas de gás natural dos Estados Unidos – e outras companhias químicas estão pagando muito menos que os concorrentes estrangeiros pela matéria prima que transformam em produtos como o plástico, aumentando as suas margens de lucro. Isso pode gerar novos empregos nos Estados Unidos, uma vez que as empresas que utilizam o gás natural como um benefício energético, afirmou Liveris, embora a geração de empregos ainda seja incipiente.

Portanto, não nos surpreende que Liveris tenha se tornado alvo de economistas e líderes empresariais, especialmente dos ligados aos negócios de extração de petróleo e gás natural, que afirmam que ele defende o protecionismo meramente para promover a própria empresa.

“Ele mostra que é uma pessoa hipócrita que só pensa nos próprios interesses”, afirmou Souki, chefe-executivo da Cheniere Energy, que recebeu a primeira autorização para exportar gás no terminal construído pela empresa em Sabine Pass, Louisiana. “Ele quer o livre comércio para tudo o que produz, mas não deseja o mesmo para os outros”.

Liveris admite que os interesses de sua empresa coincidem com seus pontos de vista, mas afirma que na posição de chefe-executivo da Dow Química, ele representa os interesses de todos os consumidores de energia e compreende melhor que a maioria das pessoas o que preços altos do gás natural podem significar para a economia dos Estados Unidos.

Ele relembra o impacto do aumento do preço do gás natural no país entre 2001 e 2005, quando a empresa foi forçada a cancelar os planos de construção de uma fábrica no Texas.

“Estou protegendo meus acionistas”, afirmou, acrescentando que de 5 a 6 bilhões de dólares em novos investimentos da Dow Química dependem da continuidade dos preços baixos, “para não repetir o filme de 2001 a 2005”.

“O que faria esse filme se repetir?”, questionou retoricamente. A resposta é sua terra natal, a Austrália, que, segundo ele, exporta 90 por cento de sua produção de gás natural. De acordo com Liveris, isso causou “o colapso do setor manufatureiro e fez o comércio pagar caro. Estamos pagando o mesmo que os japoneses pela eletricidade, embora a Austrália seja um país rico em energia”.

Todavia, outras pessoas que estão investindo pesado na região do golfo discordam de Liveris.

Peter Cella, chefe-executivo da Chevron Phillips Chemical Co, afirmou que há um risco de que o preço do gás natural suba no mercado nacional no futuro, mas os preços também podem vir a cair. “Precisamos de uma demanda de crescimento grande o bastante para manter o fluxo”, afirmou. “Acreditamos que os mercados funcionam melhor quando não há limites ou estimulantes artificiais tanto na oferta, quanto na demanda.”

Liveris afirma que ele também prefere mercados abertos, mas que a energia – assim como a defesa nacional e a produção de alimentos – exige um cuidado especial para proteger os interesses americanos. Exportar gás natural é normal, segundo ele, mas não se o preço for importá-lo de volta na forma de produtos baratos fabricados com a ajuda de gás natural barato em outros países.

“Os ingredientes da tinta também precisam da lata”, afirmou. “A cadeia de suprimento da tinta precisa de caminhões, os caminhões vão para depósitos e depois vão para as lojas. Não estou importando produtos prontos. Eles estão sendo fabricados nos Estados Unidos da América.

 

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