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Etanol: uma visão míope

Nos últimos três anos, a média anual de crescimento do consumo de combustíveis no Brasil foi de 7,39%. Nos últimos doze meses, cresceu 3,83% – quase 1,7 bilhão de litros no total. Devemos encerrar 2011 com um consumo total de combustível de 46,2 bilhões de litros.

Essa disparidade entre produção e consumo, gerou a celeuma discussão de quem é a culpa. O governo coloca a culpa no setor, porque os “usineiros não cumpriram seu papel” – dizem alguns burocratas.

Entretanto, com a política míope do governo, acenando com o retorno intervencionista do morto-vivo Instituto de Açúcar e do Álcool e a total falta de transparência para com o investidor, não há como haver crescimento sustentado. Justamente no momento em que o setor se moderniza e agrega novos participantes com poder de caixa para promover a expansão necessária.

Pergunto: quanto o país perde no longo prazo pelo, ora descaso, ora interferência, ora a combinação sórdida desses dois ingredientes?

Se assumíssemos um cenário que combinasse a mistura de etanol anidro em 18% na gasolina, o crescimento da venda de veículos em 2% ao ano e a escolha por etanol por parte dos proprietários de carros flex em 55%, o Brasil chegaria, à safra 2019/2020, com uma necessidade de moagem beirando 900 milhões de toneladas.

Porém, para alcançar esse patamar, o setor precisaria alocar investimentos da ordem de US$ 45 bilhões na construção de pelo menos 40 novas usinas em apenas oito anos.

Só assim, em 2020, atenderíamos a um consumo estimado de 83,4 bilhões de litros de combustível, dos quais 49,8 bilhões seriam etanol e 33,6 bilhões gasolina A – que juntos abasteceriam uma frota próxima dos 48 milhões de veículos, sendo 72% deles flex.

Infelizmente, esse quadro (estimativas da Archer Consulting, usando dados da ANFAVEA, Bioagência e Sindipeças) é demasiado róseo, dada a falta de planejamento de longo prazo e miopia estratégica do governo, que fazem os investimentos desaparecer.

Muitos usineiros e produtores de cana acreditam que esse lamentável estado de coisas vai nos levar ao sepultamento do etanol hidratado e o Brasil passará então a ser somente um produtor de anidro para atender a mistura do combustível à gasolina.

Na somatória desse período (até 2019/2020), o Brasil iria consumir 60 bilhões de litros a mais de gasolina, substituindo 100 bilhões de litros de etanol que deixariam de ser produzidos, o equivalente a 1 bilhão de toneladas de cana.

Quantos empregos diretos e indiretos são gerados por 1 bilhão de toneladas de cana? Qual o custo para o meio-ambiente da substituição de 100 bilhões de litros de combustível verde renovável por 60 bilhões de litros de gasolina? Qual o custo para a saúde? Qual o custo para o bolso do contribuinte, considerando que o Brasil importa gasolina mais cara do que vende na bomba dos postos de combustível?

O governo parece acertar na receita de bolo de como matar um setor pujante como é o sucroalcooleiro. Os ingredientes abundam: descaso, miopia e falta de planejamento estratégico.

 

Arnaldo Luiz Corrêa é gestor de riscos, especializado em commodities agrícolas, e diretor da Archer Consulting. Escreveu o livro “Derivativos Agrícolas”, publicado pela Editora Globo.  BRASIL ECONÔMICO

 

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