Escritor usa o passado para entender as novas tecnologias

Plataforma petrolífera tomba na Rússia e deixa 4 mortos e 49 desaparecidos
19/12/2011
Mortos por tempestade tropical nas Filipinas já passam de 650
19/12/2011

Escritor usa o passado para entender as novas tecnologias


Foto: Sean McCabe/The New York Times

Claudia Dreifus

Mais do que a maioria de nós, o historiador da ciência George Dyson passa os dias pensando em tecnologias, velhas e novas. Seu livro de 1986, Baidarka, foi uma meditação sobre um antigo caiaque dos aleútes (povo das Ilhas Aleutas). Onze anos depois, em Darwin AmongtheMachines, ele escreveu a história da inteligência artificial. Project Orion, de 2002, se concentrou num projeto abortado da Nasa que usaria bombas atômicas como combustível para mover foguetes espaciais. Turing’sCathedral, uma reconstrução dos primeiros momentos da computação digital moderna, será publicado em março.

Embora as obras deste escritor de 58 anos sejam centradas na tecnologia, elas costumam ter conotação autobiográfica. Freeman Dyson, físico, matemático e um dos protagonistas do Projeto Orion, é seu pai. Esther Dyson, filósofa da internet e investidora em alta tecnologia, é sua irmã. Nós conversamos por três horas no seu chalé em Bellingham, Washington e, mais tarde, por telefone. A seguir, uma versão editada e condensada dessas conversas.

The New York Times – Por que o senhor passou dez anos pesquisando para Turing’sCathedral?
George Dyson –
É uma história importante. E das boas! Não conheço uma única pessoa que não esteja imersa no universo digital. Mesmo os maiores críticos da tecnologia devem estar divulgando sua visão em algum site. Aldeãos do terceiro mundo que não têm luz elétrica possuem celulares. Assim, todos nós estamos vivendo num mundo digital que começou da estaca zero.
No caso de muitas formas, nem imaginamos como elas começaram. Porém, o mundo digital está ligado a um único ponto _ o Instituto de Estudos Avançados (IAS na sigla em inglês) de Princeton, no final da década de 1940 e começo da de 50. A história que conto no meu livro é de como, no final da II Guerra Mundial, John von Neumann e sua equipe de matemáticos e engenheiros começaram a construir a máquina que Alan Turing previu no artigo “Sobre Números Computáveis”, de 1936. Tratava-se de uma máquina que poderia responder qualquer pergunta que lhe fizessem.
Existiam máquinas de computação antes da de von Neumann. Elas eram extremamente lentas. A máquina do IAS foi a primeira a ter uma forma de memória absolutamente moderna em que se poderia ir a qualquer lugar a qualquer hora. Na máquina de von Neumann, você punha um endereço de dez bits e recebia uma sequência de código de 40 bits. Assim que isso se tornou possível, os números deixaram de ser símbolos e começaram a fazer coisas. Os números se proliferaram desde então. Quase todos os computadores que usamos hoje em dia, de iPads a laptops, são basicamente cópias desse.

NYT – Além da velocidade, por que o computador de von Neumann virou o protótipo de todos os outros?
Dyson –
Von Neumann tinha um tremendo interesse em máquinas que se autorreproduziam, e ele estabeleceu as condições nas quais isso seria possível. Tudo que sua equipe fez foi claramente documentado e imediatamente anunciado. A máquina não foi patenteada. A intenção era que fosse copiada, o que aconteceu mesmo, em cerca de dez lugares diferentes. É por isso que foram feitas cópias das cópias, e outras cópias continuam sendo feitas.

NYT – O computador foi construído para ajudar no desenvolvimento da bomba de hidrogênio. Por que havia essa necessidade?
Dyson –
Não havia como testar parcialmente uma bomba de hidrogênio. Uma máquina computacional era necessária para criar um modelo da explosão antes que o teste fosse realizado. É lógico, von Neumann tinha muitos interesses além da bomba. Assim que a máquina estava pronta e funcionando, ele a usou para prever o tempo e criar modelos da evolução biológica e estelar. Certamente, von Neumann apoiava a ideia de construir a Bomba H – na verdade, ele defendia uma guerra nuclear preventiva contra a Rússia -, mas também via a bomba como uma chance de o computador ser feito.

NYT – O senhor conheceu von Neumann?
Dyson –
Acho que não. Ele morreu quando eu tinha quatro anos. Contudo, cresci com seu computador. Ele estava no campus quando eu era criança, e me fascinava. Em 1958, por motivos que explico no livro, o computador foi completamente desligado, para nunca mais funcionar. Depois disso, o prédio do computador parecia um necrotério com um cadáver em seu interior. Havia algo interessante ali, mas o que era? Escrever esse livro finalmente me levou além daquelas portas fechadas.

NYT – O IAS parece ter sido um lugar fantástico onde crescer. Era mesmo?
Dyson –
De muitas formas, sim. Você sempre pensa que o lugar onde cresce é normal. Eu cresci num lugar em que as pessoas estavam projetando a bomba de hidrogênio e inventando o universo digital.
Minha irmã, Esther, que é mais velha, se lembra mais dos grandes cientistas que estavam lá. Eu me lembro de Kurt Godel, que era amigo de nossa mãe. Alguns dos físicos não gostavam muito de crianças. Quando vinham à nossa casa, não participávamos da conversa. Edward Teller gostava de crianças. Hans Bethe também. Sempre que minha irmã e eu íamos ao Fuld Hall, o prédio principal, víamos as portas se fecharem rapidamente. Em determinado momento, reclamaram de nós. Depois disso, Robert Oppenheimer, o diretor, determinou que nenhuma criança podia entrar lá desacompanhada.
A secretária de Einstein, Helen Dukas, era nossa babá. Lembro que uma vez estava irrequieto. “Por que não lê um livro?”, ela perguntou. “Não existem livros para ler”, retruquei. E ela foi até a estante e pegou A Expedição Kon-Tiki, de Thor Heyerdahl. Foi o primeiro livro adulto que me deram. Ele me moldaria.

NYT – O senhor deixou o casulo de Princeton aos 16 anos. Por quê?
Dyson –
Fui um adolescente rebelde. Foi nos anos 60. Todos eram rebeldes. Eu odiava o ensino médio. Quando não me deixaram me formar mais cedo porque não tinha feito educação física, larguei tudo e fui para a Colúmbia Britânica. Foi uma época em que muitos garotos fugiam de casa. Meu pai não me impediu.
Primeiro, trabalhei com um cara que construiu o próprio barco e zanzávamos pelo Noroeste entregando coisas. Eu adorava. O Canadá tinha natureza selvagem de verdade. A Colúmbia Britânica parecia o Yosemite no mar. Estar lá foi muito liberador – obter minha própria comida, ganhar a própria vida. Construí um barco ao estilo do caiaque dos aleútes russos, o baidarka. Eu trabalhava com rebocadores e barcos pesqueiros durante um tempo, e depois pegava meu baidarka para explorar. Fiz isso durante uns 20 anos.

NYT – E hoje em dia o senhor ganha a vida como historiador da tecnologia. Como uma pessoa que abandonou o ensino médio faz isso?
Dyson –
Ei, estamos nos Estados Unidos. Você pode fazer o que desejar! Adoro a ideia de que alguém que não terminou o ensino médio possa escrever livros que são levados a sério. A história é um dos poucos campos no qual as contribuições dos amadores são levadas a sério, desde que você siga as regras e documente as fontes. Na história, o importante é o que se escreve, não suas credenciais.

NYT – Se von Neumann anda estivesse vivo, o que ele estaria fazendo?
Dyson –
No fim da vida, seus maiores interesses eram biologia e neurologia. Acho que estaria estudando o cérebro. E, é claro, agora teria o ferramental para isso. As novas tecnologias fantásticas, como a ressonância magnética funcional, são exatamente o que ele previa. Era uma pessoa que usava muito o cérebro. Ele tinha interesse em saber como funcionava.
Também acho que von Neumann provavelmente estaria fazendo tipos de computação bem diferentes do que ele produzia no instituto. Assim como Darwin não era darwinista, Johnnievon Neumann não pertenceria à escola batizada com seu nome. O que chamamos de arquitetura Von Neumann é apenas uma aproximação bastante crua do jeito certo de fazer computação. No computador contemporâneo, 99% das peças estão inativas a maior parte do tempo. Ficam ali paradas esperando instruções. A máquina só faz uma coisa por vez. Contudo, os computadores são tão poderosos e baratos que isso não importa – mas ele se incomodaria com isso. Provavelmente ficaria chateado por essa coisa primitiva levar seu nome.

NYT – E Alan Turing?
Dyson –
Bem, ele teria quase cem anos. E morreu com 41. Ele nos deu uma revolução e não sabemos qual poderia ser a próxima, porque mal estava começando. Ele morreu interessado em biologia, embora não possamos fazer suposições porque ele não deixou muitos artigos. Tenho certeza de que estaria trabalhando com algo surpreendente. Seria algo que não poderíamos imaginar.

The New York Times

 

 

Compartilhe Isso:

Comentários

comments

Deixe uma resposta

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com